Empresas antes eram premiadas por eficiência, agora os
troféus são pela resiliência
Resiliência, porém, custa caro por obrigar a manter
estoques altos, operar com fornecedores redundantes, fábricas duplicadas, ter
excesso de liquidez, gastar com hedge e ter cadeias mais curtas
Nas últimas décadas, as empresas aprenderam a tomar decisões
em um mundo muito competitivo, mas com um script relativamente previsível.
Tínhamos globalização crescente, capital barato, cadeias eficientes, tecnologia
avançando, porém de forma incremental.
O problema do mundo atual não é apenas o risco, mas agora é
preciso decidir em um mundo imprevisível – acima do que poderíamos admitir como
normalidade. E o custo da incerteza não aparece no balanço como despesa
operacional. Mas está em toda parte: investimentos adiados, contratações
suspensas, caixa parado e decisões que nunca saem do PowerPoint.
O capitalismo sempre conviveu e calculava o
risco de suas decisões. Mas saímos de uma situação de risco mensurável para uma
ambiguidade permanente. Mesmo sendo algo sensível, vale olhar alguns dados para
que essas afirmações não pareçam desprovidas de realidade factual.
O Economic Policy Uncertainty Index Global (EPU) em 2025
atingiu um dos maiores níveis da história. Este indicador mede frequência de
notícias relacionadas simultaneamente a economia, política e incerteza em mais
de 20 países e centenas de jornais, referência para o Fed, FMI e Banco
Central Europeu. O EPU em ambiente de normalidade econômica
fica no nível de 100, na crise de 2008 estava em torno de 200, na pandemia foi
a 450 e em 2025 atingiu o índice 350.
O índice atual, além de estar mais de três vezes acima da
média histórica, permanece elevado por período muito mais longo que choques
anteriores. Isso mostra que a incerteza se mostra estrutural. Quanto maior o
índice, maior são os impactos negativos. Índice maior, menor o nível de
investimentos, maior o volume de caixa preservado, maior o prêmio de risco e
menor o crescimento.
Outros dados são encontrados no relatório “The Cost of
Policy Uncertainty on Investment” da Câmara de Comércio Internacional (ICC),
que informa que a incerteza política/econômica retirou cerca de US$ 202 bilhões
em investimentos corporativos globais em 2025. Em um cenário de agravamento, as
perdas podem atingir US$ 380 bilhões em 2026.
Segundo Oxford Economics, a incerteza reduziu o crescimento
global esperado em cerca de 0,4 ponto porcentual. O problema da incerteza não é
apenas destruir riqueza, mas impedir que ela seja criada. Se antes as empresas
eram premiadas por eficiência, agora o são por resiliência. Resiliência, porém,
custa caro porque as obriga a manter estoques altos, operar com fornecedores
redundantes, fábricas duplicadas, manter excesso de liquidez, gastar com hedge
e ter cadeias mais curtas. O custo do mundo sem roteiro talvez não esteja só
nas crises já vividas – mas no futuro que deixa de ser construído.

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