Artigo de Fernando Gabeira, O Estado de S. Paulo
Nas estradas, comendo poeira, não tenho mais o tempo dos
analistas profissionais. No passado líamos romances e ensaios nos intervalos do
trabalho cotidiano. Soterrado por gadgets eletrônicos, baterias, pilhas
alcalinas, plugs P2 e XRL, é preciso tempo também para ler os manuais. Sou um
mané de manuais. Alegro-me com as descobertas, intrigo-me com a lógica e, às
vezes, desespero-me com o tamanho das minúsculas letras. Os escritores de
manuais têm futuro com a produção incessante de novos modelos, novas funções.
Futuro bem mais promissor que o de um cronista de estrada perdido em temas que
desafiam os manuais.
Há duas semanas, no Uruguai, concluí que, apesar das
diferenças, havia algo semelhante ao que se passa no Brasil. Um interlocutor
uruguaio me dizia: "O governo da esquerda é medíocre, mas a oposição não
me entusiasma como alternativa". As eleições, a julgar pelo momento, não
devem alterar a balança do poder. Também em nosso país, de acordo com as
pesquisas, muita gente que considera o governo medíocre não se entusiasma com a
oposição como alternativa do poder.
O governo no Uruguai legalizou a maconha pelo caminho
parlamentar. Evitou o plebiscito porque talvez saiba que a maioria é contra. No
entanto, uma decisão tão polêmica não mudou em nada o favoritismo de Tabaré
Vázquez, o candidato da esquerda.
Aqui, no Brasil, o resultado do júri do mensalão, e também a
maneira como os condenados do PT reagiram ao serem presos, erguendo punhos de
uma finada revolução bolchevique, deveriam desgastar o partido e o bloco no
poder. No entanto, o prestígio de Dilma Rousseff cresce, enquanto a oposição
patina. Nas corridas de cavalos tínhamos uma frase para definir o quadro,
quando um dos competidores se destacava: de trás não vem ninguém.
Essa zona de conforto é comum aos dois governos. Mas há
diferenças no próprio exemplo: o governo uruguaio enfrenta a maioria com uma
decisão que acredita ser uma continuidade histórica. O país sempre esteve
adiante em temas como casamento gay, prostituição, divórcio, aborto e, além disso,
ainda no século 19, resolveu garantir educação obrigatória, gratuita e laica a
todos os uruguaios.
São dois movimentos diferentes na mesma zona de conforto. A
esquerda uruguaia desafia a maioria porque se crê dotada de uma tarefa
histórica e dá um passo típico da vanguarda que aplica seu programa por achar,
a despeito da opinião pública, que sabe o que é melhor para todos.
No Uruguai, o presidente José Mujica tem uma vida austera,
anda de Fusca, recebe $ 1 mil de salário e daqui a pouco deixa o poder. Aqui a
zona de conforto é mais pé na terra, mais sensual e materialista: ocupar a
máquina do Estado em todas as suas engrenagens, justificar a corrupção a ponto
de romantizá-la e usar o dinheiro público para financiar um grupo escolhido de
empresários. Aqui há bolsa para ricos e pobres, o consumo é a nossa droga.
Não leio apenas manuais na estrada. Escolho sempre o
corredor, com todo o respeito pelos simpáticos vizinhos. Esta semana viajei com
Simon Critchley nas mãos. para reler seu interessante O Livro dos Filósofos
Mortos. Para ele, negamos o fato da morte mergulhando nos prazeres do
esquecimento, da acumulação de dinheiro e bens materiais ou, então, numa
promessa de imortalidade oferecida pelas religiões antigas e as do estilo New
Age. Ou se busca a transitória consolação de um esquecimento momentâneo ou a
miraculosa redenção depois da vida.
É um enredo tão poderoso que coloniza a própria política
onde florescem as incursões em busca do tesouro e aventureiros religiosos. A
política tem que ver com o consumo digno e alguns objetivos coincidentes com a
religião. Mas não se resume nisso.
Ao analisar a morte de muitos filósofos, Critchley disse que
por meio desse roteiro mórbido tentava encontrar o sentido e a possibilidade da
felicidade. A política, ao lado do amor e da amizade, é uma das respostas para
esse enigma. É duro vê-la desaparecer do horizonte envolta numa nuvem de
resignação e fanatismo religioso e saber que não existe resposta nos manuais.
O ano que entra, com Copa do Mundo e eleições, é um desses
anos em que o "nunca fomos tão felizes" do discurso oficial é posto
contra a parede.
A oposição reclama que o governo é o único que tem
visibilidade na mídia. De fato, não só visibilidade, mas instrumentos de poder,
helicópteros para voar, enfim, uma campanha perfeita: não se gasta nada com o
máximo de repercussão. Mas há um aspecto que a oposição precisa compreender: a
importância dos fatos. Se não surgem ações nem discursos em conexão com os
fatos que interessam às pessoas, a imprensa não pode fazer nada.
Federalismo ou julgamento do mensalão? Em que planeta nós
estamos? Nada contra o federalismo, mas é algo que preocupa governantes
estaduais e está dentro da esfera política administrativa. O mensalão vivia nas
conversas de rua, na rede.
É fundamental ter programas e fazer propostas para todos os
setores num momento como este. Contudo um programa só ganha vida quando se
conecta com o interesse das pessoas reais.
Assim não dá. Quem sabe no ano que vem?
Nunca me esquecerei de um homem da minha cidade conhecido
como "Antônio me abraça". Ele entrou numa casa de apostas que
irradiava uma corrida de cavalos e disse sobre o tordilho que liderava a prova:
"Só perde se quebrar a perna". Pois quebrou.
Antônio dedicou os últimos anos de sua vida a obras de
caridade e abandonou o ramo dos milagres. Não se pode contar com ele.
Se não houver uma disposição de se encontrar com a
sociedade, a onda pode vir novamente em 2014, sem chance de inspirar a
alternativa política. De tudo fica um pouco. Mas não precisa ser tão pouco.
Fernando Gabeira, jornalista, ex-deputado federal

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