terça-feira, 2 de junho de 2026

UMA CHANCE PARA O RIO

Artigo de Fernando Gabeira

Quem mora no Rio e não pensa em se mudar precisa considerar a possibilidade que se abre de abolir a triste tradição de ver os governadores saindo do Palácio Guanabara para a cadeia.

As eleições nos dão uma chance, talvez a única, de nos livrarmos desse tipo de governo. É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira também fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo.

Não tenho ilusões de que essa mudança possa ser feita da noite para o dia. O último governador conseguiu adaptar alguns setores da administração a sua perspectiva predadora. Isso é demonstrado na sonegação da Refit — até setores do meio ambiente foram cooptados para o crime. É possível que grande parte da administração tenha apodrecido.

É preciso um plano de trabalho cauteloso para avançar nesse campo minado. Caso contrário, haverá colapso. Da mesma forma, não será possível romper com todos na Assembleia Legislativa. É preciso manter contato com alguns para ir se livrando progressivamente da máfia. Do contrário, haverá paralisia.

Nesse ponto específico, a volta por cima depende parcialmente de nós. Temos de escolher bem os deputados, acompanhar o trabalho de quem elegemos. A própria imprensa, na medida em que se concentre nos deputados, poderá ajudar a minoria, com apoio da opinião pública, a evitar barbaridades e avançar alguns projetos indispensáveis.

O grande tema na recuperação é a segurança pública. Para que tenhamos um trabalho de excelência e profissionalismo, será preciso ir além do discurso de matar bandidos. O governador eleito terá de ser capaz de convencer a sociedade de que a segurança pública exige investimentos em salários, equipamento e formação.

O estado tem pouco recurso. Mas a importância da segurança pública no Rio tem dimensão internacional. Brasília precisa ter sensibilidade para o tema que se tornou um delicado item da política externa.

Mesmo antes disso, o sofrimento de milhões de fluminenses, alguns sem gozar a liberdade nas áreas ocupadas pelo crime organizado, já seria motivo mais que razoável para que os governos estadual, federal e municipal se unissem.

A devastação moral, as dívidas crescentes, a captura de setores da administração pelo crime, a insegurança urbana, tudo isso é motivo para que todos os setores vivos e criativos do Rio se unam e tentem uma volta por cima.

Sem a consciência de que temos uma chance e de que é preciso embarcar nela, dificilmente as coisas acontecerão entregues apenas ao domínio da política profissional.

O Rio chegou a este ponto porque grande parte das forças criativas considera que não vale a pena acompanhar esse espetáculo desagradável. Pois nossos olhos, nossa voz, nossa atenção podem ser o veículo adequado para que os políticos realizem pelo menos um trabalho razoável. Não há nada a perder, basta embarcar nessa última chance.

Artigo publicado no jornal O Globo em 02 / 06 / 2026

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O REPÓRTER QUE DESCOBRE QUALQUER COISA, ATÉ VACA FALANTE

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Livro narra trajetória de Luarlindo Ernesto, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje

Aos 82 anos, ele é capaz de desvendar o mistério do dinheiro investido no filme "Dark Horse"

No romance "O Piano e a Orquestra", de Carlos Heitor Cony, o narrador está obcecado por uma vaca. Uma vaca que fala em perfeito francês: "À votre service".

Ele só a encontrara uma vez, empacada no meio da estrada, e gostaria de revê-la e mergulhar de novo na doce alucinação. Só uma pessoa no mundo poderia ajudá-lo: o repórter policial Luarlindo, cuja fama era saber de tudo e ser capaz de descobrir qualquer coisa. Em troca de alguns chopes, o jornalista dá o serviço. A vaca se escondia no bairro do Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro.

Revelar o mocó da vaca falante foi moleza para Luarlindo. Veterano do Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, sempre furando a concorrência, em seu currículo constam, além de três prêmios Esso, coberturas mais difíceis e traumáticas: a busca pela corpo da socialite Dana de Teffé, o incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, a morte do detetive Milton Le Cocq, a caçada ao bandido Cara de Cavalo, as fugas cinematográficas do assaltante Lúcio Flávio, o surgimento dos esquadrões da morte, o sequestro do menino Carlinhos, o atentado a bomba no Riocentro, a captura do mafioso Tommaso Buscetta no Brasil.

Luarlindo Ernesto, que inspirou o personagem de Cony, acaba de ganhar uma biografia. Em "O Último Repórter dos Anos de Chumbo", Elenilce Bottari narra com rigor histórico os episódios da trajetória de Luar, como é conhecido, mas de maneira descontraída, como se fosse uma conversa de bar, com pitacos do próprio biografado: "Falei com o Buscetta, mas a única coisa que o italiano me disse foi: ‘A pronúncia do meu nome não é busqueta. É buceta mesmo’".

Aos 82 anos, Luarlindo mantém o faro de quem começou a trabalhar na Última Hora aos 14, quase de calças curtas, como foca do repórter sensacionalista Amado Ribeiro. Testemunha e agente das transformações no jornalismo, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje, se pautado pela chefia, ele é capaz de descobrir onde está escondida a grana do filme "Dark Horse".

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