Por Cilene Victor, via Facebook
"Eu não sabia o que estava acontecendo nos porões da
ditadura"
O uso da expressão "porões da ditadura" é o
recurso mais baixo usado por todos aqueles que diziam não saber o que acontecia
[as torturas, em especial] durante o regime militar.
Não houve porão, tudo aconteceu no térreo, na cara de todo
mundo. A metáfora do porão é historicamente usada pelos omissos.
Hoje, talvez, muitos franceses devem dizer que não sabiam
que a França foi o país que mais vendeu armas para Ruanda durante a guerra civil
que culminou com o segundo maior genocídio do século XX.
Mas vamos voltar ao nosso passado. Os que optaram pela
omissão têm, neste momento, uma grande chance de pedir desculpas.
Muitos veículos de imprensa, seus diretores e alguns de seus
jornalistas, sem falar nos falsos artistas da época, devem um pedido de
desculpas e isso poderia ser feito em letras garrafais.
Nada me entristece mais do que ver histórias contadas de
forma irresponsável, com recortes perigosos.
A condição primária para impedir os erros passados é manter
vivo o passado.
Dizer que foi omisso por medo, por opção ou alienação, de
fato não importa.
Só não dá para dizer, meus caros, que tivemos uma ditadura
branda e, muito menos, negar que a TV, o futebol, as músicas de Roberto Carlos,
os programas do Chacrinha e do Flávio Cavalcanti, como tanta porcaria da época,
foram estratégica e exaustivamente explorados pelos militares como mecanismos
para entreter.
Só dá para conceber a frase: "eu não sabia o que estava
acontecendo" se tiver o "porque estava assistindo ao Flávio
Cavalcanti".
Nossos comerciais, por favor!
Cilene Victor, professora de jornalismo na Faculdade Cásper
Líbero e comentarista do Jornal da Cultura.

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