Por Eduardo Campos, via Facebook
Quando o golpe militar foi deflagrado no Brasil, há exatos
50 anos, o Exército cercou o Palácio do Campo das Princesas, sede do governo de
Pernambuco, à época ocupado pelo meu avô, Miguel Arraes. Os golpistas
ofereceram a ele a opção de abandonar o cargo para evitar a prisão. Foi quando
ele respondeu ao oficial que comandava as tropas na ocasião: "O senhor não
tem autoridade para me depor. Sou Governador do estado eleito pelo povo de
Pernambuco e somente ele pode me depor. O senhor pode me tirar deste prédio
pela força, mas continuarei Governador até o último dia do mandato me concedido
pelo povo, esteja eu onde estiver."
A coragem mostrada por meu avô teve um preço alto. Foi
acusado de subversão, preso e obrigado a se exilar durante mais de dez anos.
Entretanto, ele nunca se arrependeu de suas palavras, que poderiam ser usadas
até hoje como lema por políticos e governantes comprometidos com a vontade do
povo. Essa declaração resumiu seu amor pela Democracia, que pautou toda sua
vida.
Eu nasci em uma família de perseguidos políticos. Não levo
Arraes no sobrenome por receio de meus pais das perseguições que poderia sofrer.
Assim como milhões de brasileiros, sei o quanto é difícil e dolorido viver em
um país sem Democracia, controlado por um governo que não respeita o direito à
liberdade, o direito ao livre pensamento e à livre expressão, o direito do povo
de escolher seu destino.
A ditadura militar, mesmo parecendo distante aos olhos dos
mais jovens, ainda é muito recente. Milhares de brasileiros e suas famílias
ainda carregam as marcas dela. Crimes não foram esclarecidos, vítimas não foram
encontradas.
No início dos anos 80, o povo brasileiro foi corajosamente
às ruas e uniu a nação novamente, sob os valores da Democracia, da liberdade e
da justiça. Ainda jovem, fui às ruas ao lado de milhões de brasileiros na
campanha pelas Diretas Já, uma das manifestações mais fortes e bonitas da
história recente de nosso país.
O reestabelecimento da Democracia é uma das maiores vitórias
populares que o Brasil tem em sua história.
É um capítulo que não pode ser apagado, reescrito ou
diminuído. Pelo contrário, deve ser intensificado e valorizado a cada dia. É
uma conquista popular que pertence a todos. Ela pertence a quem foi às ruas,
pertence a quem deu a vida pela Democracia, pertence até mesmo àqueles que
nasceram depois dela.
O Brasil, hoje, é um país democrático. Como toda nação,
temos problemas e dificuldades. Mas os problemas da Democracia a gente resolve
com mais Democracia, melhorando e aperfeiçoando nossas instituições.
Pois a Democracia não se resume ao direito de voto, ela
significa que a vontade do povo deve ser soberana nos destinos de uma nação. E
essa é, talvez, a maior riqueza que um povo pode ter.
Eduardo Campos, governador de Pernambuco, presidente
nacional do PSB

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