Merval Pereira, O GLOBO
Se causaram rebuliço entre os políticos e as autoridades
estaduais, as declarações do ministro da Justiça Torquato Jardim sobre a
contaminação política do crime organizado com as forças policiais não
surpreenderam os cariocas e aqueles que acompanham a situação da segurança
pública no Rio.
Os políticos que saíram em defesa das corporações o fizeram
corretamente para evitar generalizações, mas eles certamente sabem o que
acontece em setores da segurança do Estado. Essa promiscuidade não é inerente
às forças policiais do Rio, mas acontece em todos os lugares em que o combate
ao crime organizado está em andamento.
A célebre história do policial Sérpico, em Nova York, que
ajudou a desbaratar quadrilhas de criminosos que atuavam dentro da polícia
novaiorquina, transformada em filme de sucesso de Al Pacino, foi lembrada ontem
pelo deputado Miro Teixeira.
O que milhões de pessoas viram nos filmes Tropa de Elite 1 e
2, citados pelo ministro Torquato Jardim como situações que voltamos a viver no
Rio depois de um breve intervalo em que as Unidades Pacificadoras funcionaram,
era ficção baseada na realidade.
A Força-Tarefa que foi criada recentemente pela
Procuradoria-Geral da República, a pedido do ministro da Defesa Raul Jungman,
tornou-se necessária justamente devido à situação específica do Rio, em que a
corrupção política abriu caminho para a atuação do crime organizado dos
traficantes e dos milicianos.
Os precedentes de sucesso no Acre e, sobretudo, no Espírito
Santo, estados que já estiveram dominados pelo crime organizado comandado pela
classe política, mostram que a criação de uma Força-Tarefa para combater o
crime organizado, sem prazo determinado, com uma visão de longo prazo e sem
estar atrelado a mandatos governamentais, é o melhor caminho para restabelecer
a supremacia da lei no Estado do Rio.
Como já escrevi aqui, a criação dessa força-tarefa, reunindo
equipes do Ministério Público Federal, da Justiça Federal, da Polícia Federal e
da Polícia Rodoviária Federal, surgiu do diagnóstico das forças de segurança de
que o Estado foi capturado pela corrupção e pela criminalidade, ambos se
cruzando.
Temos cerca de 1 milhão de pessoas no Rio de Janeiro vivendo
em um estado de exceção, sob o controle de bandidos, milicianos ou traficantes.
Quem tem esse controle sobre o território, tem o controle político, é capaz de
direcionar votos, de eleger seus representantes, fazer seus aliados, que se
encontram na Câmara Municipal, na Assembléia Legislativa e mesmo no Congresso
Nacional.
Isso significa que são capazes de colocar seus prepostos
dentro do aparato de segurança. No Rio de Janeiro, alguém dessa ligação pode
indicar um chefe de batalhão, um delegado, e assim por diante. Essa prática,
comum no Estado, em algum momento voltou, e a captura de postos chaves no
aparato de segurança por indicações políticas acabou sendo uma realidade
novamente no governo estadual, envolvido profundamente na corrupção e na
proteção de quadrilhas, segundo diagnóstico original dos serviços de
inteligência.
Sempre que as Forças Armadas são chamadas a intervir no Rio,
devido ao recrudescimento da ação dos bandidos, há um desconforto que não é
explicitado formalmente na relação com as polícias locais. Não é possível
generalizar, e esse certamente foi um erro do ministro Torquato Jardim, mas a
citação de que ações sigilosas vazam com freqüência é de conhecimento de todos
dentro dos setores de segurança.
Tanto que a Força Tarefa recém-criada é federal, terá a
participação das polícias do Rio em posição secundária. O Rio necessita de uma
força-tarefa federal para dar conta, sobretudo, de um estado paralelo,
classificado pelas análises dos serviços de informação como “capturado pelo
crime organizado”.
Foi a partir das informações dos serviços de inteligência do
Exército e da Polícia Federal que ministro Torquato Jardim soltou informações
importantes sobre a segurança pública no Rio, e não foi à toa o que disse. A
hipótese mais provável é que ele tenha falado para fazer andar as
investigações, que estariam paradas por pressões políticas.
O improvável é que ele tenha sido leviano, o que falou,
primeiro para o blog de Josias de Souza, depois para O Globo, foi com base em
investigações que estão sendo feitas no Rio, desde a intervenção das Forças
Armadas. Não adianta o governo do Estado nem a Polícia Militar reclamarem; o
sistema de inteligência do Exército está atuando. O ministro sabe certamente o
nome dos políticos que estariam envolvidos nesse conluio, e os indícios das
investigações levaram às suas declarações. E certamente levarão a ações
concretas de repressão.

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