Na montagem de sua equipe, o presidente eleito, Jair
Bolsonaro, já deu pistas de como a banda vai tocar no seu governo em relação a
alguns temas da agenda nacional. Por exemplo, ninguém pode dizer que se enganou
em relação ao futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, cuja pasta combaterá o
crime organizado e a corrupção. A mesma coisa pode-se dizer quanto ao
superministro da Fazenda, Paulo Guedes, que o mercado conhece muito bem. Idem
para a ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM-MS), indicada pelo
agronegócio de exportação. O futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni,
também não engana ninguém: seu estilo e modo de operar no Congresso são
conhecidos.
O que permanece uma incógnita é a relação do futuro governo
com a política mundial. Os sinais de Bolsonaro eram no sentido de um
alinhamento automático com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Deu
várias declarações nessa direção, seja em relação aos acordos multilaterais,
como o Mercosul e o de Paris, seja em questões mais específicas, como as
relações comerciais com a China e a intenção de mudar a embaixada do Brasil em
Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Ocorre que essas declarações tiveram
repercussão muito negativa, e as eleições norte-americanas de 6 de novembro
mostraram que o vento mudou em relação a Trump. Com os democratas conquistando
a maioria na Câmara, nada será como antes.
Nos bastidores da transição, com o roque do Ministério da
Defesa para o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), as quatro estrelas do
general Augusto Heleno passaram a brilhar mais do que todas as outras,
inclusive as do vice-presidente, general Hamilton Mourão, que é mais “moderno”.
Essa mudança tem impacto no posicionamento estratégico de governo sobre vários
temas, um deles é a política externa. Desde a Guerra das Malvinas, quando os
EUA deram apoio logístico aos ingleses e, inclusive, inviabilizaram a
utilização de seus mísseis pelos argentinos, a velha Doutrina Monroe caducou.
Vigorava desde 2 de dezembro de 1823, quando o presidente
James Monroe, no Congresso norte-americano, disse que o continente não deveria
aceitar nenhuma intromissão europeia: “América para os americanos”, proclamou.
De uma só vez, os EUA rechaçaram a criação de novas colônias no continente, a
interferência de nações europeias em questões internas e a neutralidade
norte-americana em conflitos envolvendo países europeus. Esses princípios
funcionaram contra a Espanha e a antiga União Soviética, mas não contra o
principal aliado dos EUA no Atlântico, a Inglaterra. A guerra das Malvinas
aprofundou o chamado “pragmatismo responsável” dos chanceleres Azeredo da
Silveira e Saraiva Guerreiro. Durante os governos Geisel e Figueiredo,
respectivamente, o Brasil abandonou o alinhamento automático aos Estados
Unidos.
Guerra comercial
Nessa época, o redirecionamento da política externa para as relações Norte-Sul mirava principalmente a África e os países árabes; o eixo do comércio mundial não havia se deslocado do Atlântico para o Pacífico, como acontece agora. Mas, com essa mudança, a China acabou se transformando no principal parceiro comercial do Brasil, desbancando os Estados Unidos. Ocorre que nossa infraestrutura de comércio exterior e logística está voltada para o Atlântico, não temos escala de investimentos para redirecioná-la ao Pacífico com a eficiência e a rapidez necessárias. Quem paga o preço é a nossa indústria.
Nessa época, o redirecionamento da política externa para as relações Norte-Sul mirava principalmente a África e os países árabes; o eixo do comércio mundial não havia se deslocado do Atlântico para o Pacífico, como acontece agora. Mas, com essa mudança, a China acabou se transformando no principal parceiro comercial do Brasil, desbancando os Estados Unidos. Ocorre que nossa infraestrutura de comércio exterior e logística está voltada para o Atlântico, não temos escala de investimentos para redirecioná-la ao Pacífico com a eficiência e a rapidez necessárias. Quem paga o preço é a nossa indústria.
É nesse contexto que o jovem chefe do Departamento de
Estados Unidos, Canadá e OEA do Itamaraty, o ministro de primeira classe
Ernesto Henrique Fraga Araújo, encantou Bolsonaro com um artigo “presbítero”
publicado na revista do Itamaraty, intitulado “Trump e o Ocidente”. No texto,
afirma que o presidente norte-americano está salvando a civilização cristã
ocidental do islamismo radical e do “marxismo cultural globalista”, ao defender
a identidade nacional, os valores familiares e a fé cristã. Música para os
ouvidos de Bolsonaro.
Entretanto, o cargo de ministro das Relações Exteriores
exige muito mais do que uma visão religiosa de mundo. Outros nomes já foram
sugeridos a Bolsonaro, entre os quais o atual embaixador no Canadá, Paulo
Bretas, e os ex-embaixadores em Washington Roberto Abdenur, Sergio Amaral e
Rubens Barbosa. A escolha de um deles definirá os rumos da política externa de
Bolsonaro, num momento em que o Brasil, como outros emergentes, pode virar
marisco na guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. Os efeitos das
tarifas impostas por Trump às importações chinesas, assim como das restrições
de acesso a tecnologias americanas, já desaceleram o comércio mundial, o que
não é bom para o Brasil, a não ser que os Estados Unidos voltem a reduzir a sua
taxa de juros, o que enfraqueceria o dólar e beneficiaria os emergentes. Mas aí
já é adivinhação.
Do Blog do Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

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