Jair Bolsonaro tem
confessada admiração pelo presidente Donald Trump, mas, pelo andar da carruagem
na área dos costumes, seu governo caminha para se aproximar do Irã dos
aiatolás, curiosamente um dos grandes inimigos de Trump.
A ideia do escolhido para ministro
da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, de criar “conselhos de ética” para
zelar “pela reta educação moral dos alunos” tem todo o cheiro da polícia moral
adotada no Irã (entre outros países muçulmanos, como a Arábia Saudita).
A polícia moral iraniana funciona assim, conforme
descrição de Samy Adghirni, brilhante repórter que era à época (2012)
correspondente daFolha em Teerã:
“A mulher abordada [pela polícia moral] tinha todos os
‘vícios’ da típica infratora: maquiagem berrante, roupa colorida, casaco que
bate na coxa em vez do joelho e, principalmente, um véu cobrindo apenas a parte
de trás da cabeça, deixando à mostra cabelos tingidos de loira. A moça, entre
seus 25 e 30 anos, pediu aos policiais que ao menos a deixassem pagar o suco
consumido".
Que perigosa criminosa essa moça, não? A polícia moral
estava apenas cumprindo o seu papel de zelar pelo “reto comportamento” da
jovem, nos moldes defendidos pelo futuro ministro da Educação.
Quem é que vai definir o que é “reta educação moral"?
Um ministro que acha que se deve comemorar o golpe de 1964, aquele mesmo que
prendeu, sequestrou, matou, torturou, baniu e exilou milhares de pessoas,
censurou a imprensa, fechou o Congresso, cassou mandatos políticos e praticou
outras barbaridades?
Os aiatolás, no Irã, fazem a mesmíssima coisa e também acham
que estão apenas enquadrando a população no que consideram os bons costumes.
O problema principal para a implantação da tal Escola sem
Partido passa exatamente por aí: quem vigia o comportamento dos professores
para assegurar que eles não se desviem da “reta educação moral"?
Aliás, primeiro seria preciso haver um razoável consenso na
sociedade em torno do que é educação reta.
Para o meu gosto, por exemplo, educação reta é aquela que
festeja a democracia, não a ditadura, como pretende o ministro indicado.
Sem esse consenso –quase impossível de alcançar dada a
imensa variedade de comportamentos que se encontram habitualmente em sociedades
complexas–, só a implantação de uma polícia moral para vigiar professores (e
alunos, claro).
Pode até se chamar de conselho de ética, mas não será
diferente do fundamentalismo religioso (no caso católico, em vez de muçulmano)
que caracteriza o Irã.
Clóvis Rossi
Repórter especial, membro do Conselho Editorial da Folha e
vencedor do prêmio Maria Moors Cabot.

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