A última eleição foi um tsunami que varreu o sistema
político brasileiro. Terminou o ciclo político-eleitoral iniciado depois da
Constituição de 1988. Ruiu graças ao modo como se formaram os partidos, o
sistema de voto e o financiamento das campanhas. A vitória da candidatura
Bolsonaro funcionou como um braço cego da História: acabou de quebrar o que já
estava em decomposição. Há muitos cacos espalhados e há a necessidade de
reconstrução. Ela será feita pelo próximo governo? É cedo para dizer.
O sistema político-partidário não ruiu sozinho. As fraturas
são maiores. Antes, o óbvio: a Lava Jato mostrou as bases apodrecidas que
sustentavam o poder, sacudiu a consciência do eleitorado. Qualquer tentativa de
reconstruir o que desabou e de emergir algo novo passa pela autocrítica dos
partidos, começando pelo PT, sem eximir o MDB e tampouco o PSDB e os demais. Na
sua maioria, os “partidos” são sopas de letras, e não agremiações baseadas em
objetivos e valores. Atiraram-se na captura do erário, com maior ou menor gula.
Visto em retrospectiva, é compreensível que um sistema
partidário sem atuação na base da sociedade se desmonte com aplausos populares.
Os mais pobres encontram nas igrejas evangélicas – e em muito menor proporção
na Igreja Católica e em outras religiões – recursos para se sentirem coesos e
integrados. O povo tem a sensação de que os parlamentos e os partidos não
atendem aos seus interesses. O eleitorado, contudo, não desistiu do voto e
imaginou que talvez algo “novo”, inespecífico, poderia regenerar a vida pública.
Não foi só isso que levou à vitória o novo presidente. Basta
conhecer mais de perto a vida dos mais pobres nas favelas e nas periferias
carentes de quase tudo para perceber que pedaços importantes do território
vivem sob o domínio do crime organizado, violência que não se limita a essas
populações, pois alcança partes significativas da população urbana e rural.
Inútil imaginar outros motivos para a vitória “da direita”.
Não foi uma direita ideológica que recebeu os votos. Estes foram dados mais
como repulsa a um estado de coisas em geral e ao PT em particular. O governo
foi parar em mãos mais conservadoras, e mesmo de segmentos abertamente
reacionários, não pelas propostas ideológicas que fizeram, e sim pelo que eles
simbolizaram: a ordem e a luta contra a corrupção. Não venceu uma ideologia,
venceu o sentimento de que é preciso pôr ordem nas coisas, para estancar a
violência e a corrupção e tentar retornar a algum tipo de coesão social e
nacional.
Enganam-se os que pensam que “o fascismo” venceu. Enganam-se
tanto quanto os que veem o “comunismo” por todos os lados. Essa polarização
marcou a pugna política em outra época de antes da 2.ª Grande Guerra, ao fim da
qual foi substituída pela polarização entre capitalismo liberal e socialismo.
Os problemas básicos do País continuarão a atazanar o povo e
o novo governo. Este não será julgado nas próximas eleições por sua ideologia
“direitista”, mas por sua capacidade, ou não, de retomar o crescimento,
diminuir o desemprego, dar segurança à vida das pessoas, melhorar as escolas e
os hospitais, e assim por diante.
Com isso não quero justificar a “direita”, dizendo que se
for capaz de bem governar vale a pena apoiá-la, mas também não posso endossar a
“esquerda”, quando ela deixa de reconhecer seus erros, conclama a votar contra
tudo o que o novo governo propuser, sem considerar o que realmente conta: quais
os efeitos para o bem-estar das pessoas, para o fortalecimento dos valores
democráticos e para a prosperidade do País.
As mudanças pelas quais passamos, aqui e no mundo, são
inúmeras e profundas. Pode-se mesmo falar numa nova “era”, a da conectividade.
Se houve quem escrevesse “cogito ergo sum” (penso, logo existo), como fez
Descartes, se depois houve quem dissesse que o importante é saber que “sinto,
logo existo”, em nossa época, sem que essas duas afirmativas desapareçam, é
preciso adicionar: “Estou conectado, logo existo”. Vivemos a era da
informática, das comunicações e da inteligência artificial, que sustentam o
processo produtivo e formam redes entre as pessoas.
As novas tecnologias permitem formas inovadoras de enfrentar
os desafios coletivos, assim como acarretam alguns inconvenientes, como a
dificuldade de gerar empregos, a propagação instantânea das fake news, a
formação de ondas de opinião que mais repetem um sentimento ocasional do que
expressam um compromisso com políticas a serem sustentadas em longo prazo. Elas
dependem de instituições, partidos, parlamentos e burocracias para serem
efetivas.
As questões centrais da vida política não se resumem, no
mundo atual, à luta entre esquerda e direita. No passado o espectro político
correspondia a situações de classe, interpretadas por ideologias claras,
assumidas por partidos. Na sociedade contemporânea, com a facilidade de
relacionamento e comunicação entre as pessoas, os valores e a palavra voltaram
a ter peso para mobilizar politicamente. Isso abre brechas para um novo
populismo e uma exacerbação do personalismo. O desafio está em recriar a
democracia. O que chamo de um centro radical começa por uma mensagem que envolva
os interesses e sentimentos das pessoas. E essa mensagem, para ser
contemporânea, não deve estancar num palavreado “de direita” nem “de esquerda”.
Deve, a despeito das divergências de classe que persistem, buscar o interesse
comum capaz de cimentar a sociedade. O País não se unirá com o ódio e a
intransigência cultural existentes em alguns setores do futuro governo.
Há espaço para propostas que juntem a modernidade ao
realismo e, sem extremismos, abram um caminho para o que é novo na era atual.
Esse percurso deve incorporar a liberdade, especialmente a de as pessoas
participarem da deliberação dos assuntos públicos, e a igualdade de
oportunidades que reduzam a pobreza. E há de ver na solidariedade um valor. Só
juntos poderemos mais.
*Fernando Henrique Cardoso é sociólogo, foi presidente da
República
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