Paulo Pereira da Silva deve ter dito a primeira coisa
sincera em todos os Primeiros de Maio nos quais discursou ao longo da vida de
dublê de dirigente sindical e deputado federal – um posto se retroalimentando
do outro, num círculo nada virtuoso.
Nesse surto de sincericídio, enunciou o que pode ser
batizado daqui para a frente do “paradoxo de Paulinho”: os deputados sabem que
precisam aprovar a reforma da Previdência, mas hesitam em apoiar uma proposta
robusta, pois ela pode significar o triunfo político de Jair Bolsonaro, sua
eventual reeleição e, por consequência, mais quatro anos de infortúnio para a
classe política.
Trata-se, por óbvio, de um raciocínio abjeto. Reduz a mero
cálculo político um tema crucial para que o País saia do lodaçal econômico e
social em que se encontra pelo menos desde 2014, um buraco cavado
diligentemente pelo PT sob Dilma Rousseff.
A economia real está parada. Empregos, produção industrial,
investimentos, tudo espera algum sinal de que o Brasil vai conseguir romper com
o ciclo de escalada da dívida e de produção de déficits fiscais que já dura
cinco anos e está contratada para pelo menos mais três – isso se tudo correr
conforme o previsto, ou seja, num cenário positivo.
Portanto já não se trata de discutir a necessidade de se
reformar a Previdência, que vai consumir R$ 750 bilhões do Orçamento só neste
ano, mas de que maneira fazê-lo: se de forma mais robusta, aprovando uma
proposta próxima à enviada pelo governo, que permita uma “economia” em dez anos
de algo acima de R$ 800 bilhões, ou uma meia sola a la Paulinho para dar alguma
satisfação ao eleitor mas deixar o jogo eleitoral em 2022 aberto.
Ao dizer em público o que políticos de vários matizes
cochicham nos corredores de Brasília, o deputado do Solidariedade mostra que os
proclamados esforços do governo de construir uma base parlamentar sólida ainda
não surtiram efeito. Estigmatizados como expoentes da velha política, colocados
todos no mesmo balaio dos Paulinhos da vida, deputados e senadores não
acreditam que tudo vá mudar a partir de agora.
Existe um fosso real, resultado do fato de que Bolsonaro e
seu núcleo mais próximo nutrem desprezo pela atividade política institucional,
e os representantes de partidos veem no presidente uma ameaça a sua própria
sobrevivência.
Numa forma ainda mais dramática que a enunciada pelo
deputado da Força, é comum ouvir de outros parlamentares coisas do gênero: “Vou
dar ao Bolsonaro uma arma para ele me matar no meu Estado na minha reeleição”,
em referência à Previdência.
Como assim? O deputado de partidos do centro raciocina que
vai votar uma medida impopular, que dará ao presidente um ambiente econômico
positivo, sobretudo na reta final do mandato, e será “brindado” com tentativas
de desconstrução feitas por aliados do presidente em sua base, sem que tenha
postos de comando ou “entregas”, na forma de recursos, para se apresentar ao
eleitor.
É a política real batendo à porta e ameaçando de forma muito
concreta a aprovação da reforma da Previdência. Reverter esse ambiente só é
possível se o governo conseguir construir uma relação de confiança com o
Congresso, em que os parlamentares sejam incluídos na narrativa como
co-partícipes do esforço para tirar o País do buraco. Na metáfora cara ao
bolsonarismo, seria apresentar os congressistas como “combatentes”,
“patriotas”, “soldados”, e não párias em busca de boquinhas.
A fala supersincera de Paulinho é paradoxal, entre outras
razões, porque não ajuda nada a melhorar a imagem da classe política. Mas, sem
que se construa essa relação entre Executivo e Legislativo, a Previdência corre
sério risco.

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