Por que os eleitores aparentemente votam contra seus
interesses econômicos? Por que as pessoas apoiam medidas econômicas que podem
lhes trazer prejuízos? Por que o eleitor racional em matéria econômica parece
ser um mito que não encontra qualquer apoio nos dados? Essas perguntas são
essenciais para entender não apenas o ressurgimento do nacionalismo econômico
no mundo, mas também para entender a economia política que determina decisões
surpreendentes. Nos países desenvolvidos, em especial nos EUA, essas perguntas estiveram
presentes no rescaldo da eleição de Donald Trump e retornaram agora, com as
eleições de 2020.
Em 2016, os eleitores norte-americanos que elegeram Trump
votaram contra a imigração, apesar das amplas evidências de que o
envelhecimento populacional e as características demográficas dos EUA clamam
por imigrantes para sustentar o crescimento econômico. Esses mesmos eleitores
também foram capturados pela retórica protecionista, ainda que as medidas que
dela resultassem pudessem trazer prejuízos concentrados em localidades e
parcelas expressivas do eleitorado.
Nos dois casos, o que se viu foi a imputação de culpa – nos
imigrantes, no comércio internacional – e na racionalização de temas como a
causa de todos os males, sobretudo daquelas pessoas que sentiram-se ao longo do
tempo marginalizadas pelas transformações ocorridas no sistema produtivo
norte-americano. A emoção suscitada, seja indignação ou repúdio, foi mais forte
do que qualquer fato ou evidência.
Três anos depois, o mesmo continua a ocorrer. Imigrantes
continuam demonizados pela parcela de eleitores de Trump a despeito de tudo,
inclusive do tratamento desumano recebido na fronteira com o México. O comércio
internacional e as guerras tarifárias de Trump, que já fizeram vítimas entre os
produtores rurais com o desvio de compras de produtos agrícolas da China para
outros países, não provocaram qualquer alteração visível nas preferências
desses eleitores. Embora seus interesses econômicos estejam sendo prejudicados,
muitos continuam a apoiar Trump com o mesmo fervor.
O que explica esse tipo de comportamento? Teses abundam,
mas, francamente, a mais fácil de enxergar é aquela que coloca a polarização no
centro da explicação. Aqui nos EUA a polarização se dá menos em função de
posicionamentos políticos associados ao que se poderia chamar de “esquerda” ou
“direita”, e mais em relação às questões identitárias. Raça e gênero são duas
linhas divisórias mais marcantes do que os conceitos de “conservador” ou “liberal”.
Exemplo disso foi o furor causado por Trump depois de o presidente
norte-americano postar tuíte controvertido sobre quatro parlamentares
democratas, todas mulheres, nenhuma delas branca.
O “nós e eles” que hoje determina a polarização
norte-americana está portanto bastante marcado por ser branco e homem ou ser
mulher de outra raça. Essa não é uma simplificação boba do que se passa por
aqui, infelizmente. Ao rachar o país nessas linhas divisórias, Trump tenta mais
uma vez mobilizar seus eleitores menos pelos seus interesses econômicos e mais
pela tribo a qual pensam pertencer. Deu certo em 2016. Ao que tudo indica, é
provável que dê certo novamente em 2020, ainda que os prejudicados pelas
políticas econômicas de seu governo existam – eles e elas estão dispostos a
ignorar esses prejuízos a favor de ver o outro grupo perder.
Algo parecido acontece hoje no Brasil, ainda que os grupos
sejam bastante diferentes. Não há uma divisão por raça ou gênero, mas sim por
outra demarcação. De um lado, define-se a “esquerda”, de outro a
“antiesquerda”. A antiesquerda não é, necessariamente, a direita. O grupo é
formado por todos aqueles que identificam a esquerda como corrupta e incapaz de
gerir o País, dados os desastres econômicos do PT. Vista dessa maneira, não
surpreende que todas as reformas rejeitadas pela esquerda – como a reforma da
Previdência – sejam imediatamente encampadas pela antiesquerda, produzindo o
resultado da votação em primeiro turno na Câmara.
Repensar a primazia da política sob esses moldes é importante
para entender os rumos das reformas. O que vemos hoje é bem mais amplo do que o
Brexit ou a eleição de Trump em 2016. Saber traçar a economia política da
polarização é saber prognosticar o futuro da economia.
*Economista, pesquisadora do Peterson Institute for
International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University

Nenhum comentário:
Postar um comentário