Agitava as mãos e gritava: “É palhaçada! Hipocrisia!”
Era contra qualquer tipo de proibição ao empreguismo de
parentes no governo, Legislativo e Judiciário. Já havia inscrito mãe, filho e
mulher na folha salarial de seu gabinete de deputado federal pelo Rio:
“Eu não estou preocupado porque meu filho não é um imbecil e
minha mulher não é uma jumenta…”
Seguiu com uma provocação ao plenário: “E as amantes? Vão
ficar de fora da proposta? Todo mundo sabe que tá cheio de amante do Executivo
aqui.”
Ninguém se intimidou. A proposta de emenda à Constituição
(nº 334) para proibir o nepotismo foi admitida na Câmara naquela quarta-feira,
um 13 de abril de 14 anos atrás. Não foi muito além, porque alguns insistiam na
velha política de apropriação de uma fatia do Orçamento público para uso
pessoal, privado ou familiar. Nesse grupo se destacavam Bolsonaro e Severino Cavalcanti,
presidente da Câmara.
Com oito parentes pendurados na folha do Legislativo,
Cavalcanti inspirava humoristas como Millôr Fernandes: “Mateus, primeiro,
segundo e terceiro, os teus”. Nepote, por bastardia, do Barão de Pau Barbado,
escravocrata sanguinário, Agamenon Mendes Pedreira, do GLOBO, lembrava: “O
nepotismo começou cedo, quando Deus nomeou Seu filho para a Santíssima
Trindade.”
Cavalcanti, como Bolsonaro, não estava nem aí: “Essa
história de nepotismo é coisa para fracassados e derrotados que não souberam
criar seus filhos.”
No vácuo do Legislativo, o Supremo estabeleceu regras
básicas antinepotismo (Súmula 13), mas deixou brechas. Em seguida, Lula proibiu
por decreto (nº 7.203).
Ontem, na Câmara, Bolsonaro reafirmou sua predileção pelo
nepotismo: “Por vezes, temos que tomar decisões que não agradam a todos, como a
possibilidade de indicar para a Embaixada dos Estados Unidos um filho meu… Se
está sendo tão criticado, é sinal de que é a pessoa adequada…”
No plenário, o deputado Eduardo agradeceu. Lembrou que já
devia ao pai o mandato: “Sou seu filho, indissociavelmente.”
Deve ser isso que chamam de “nova política”.

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