A nova ofensiva dos generais de Bolsonaro pelo Twitter
Em 1854 um jornalista irlandês foi enviado pelo Times para acompanhar
as tropas britânicas em luta na Criméia. Foi pelas mãos do repórter
William Howard Russell que a população inglesa tomou conhecimento dos horrores
da guerra, dos mutilados perecendo sem ajuda ou lenitivo, da falta de
ambulâncias e dos ataques frontais. Em pouco tempo, o Estado-Maior britânico
percebeu que deixar jornalistas circulando livremente pelos campos de batalha
não era boa ideia.
Na Primeira
Guerra Mundial, a liberdade dos correspondentes de guerra seria
reduzida pela censura e controle exercidos pelos beligerantes. Principalmente,
após o fracasso da ofensiva em Gallipoli, quando tropas francesas e britânicas
desembarcaram perto de Istambul na tentativa de pôr o Império Otomano fora de
combate. Tudo
noticiado pelos jornais. Na ofensiva seguinte, em 1.º de julho de
1916, o comando inglês moveu seus homens pelo vale do Rio Somme, no norte da
França, em meio à barragem das notas oficiais.
Milhares morreram no primeiro dia de combate em troca de
poucos metros de terra. Foram obliterados pelas armas alemãs depois de ganharem
o topo das trincheiras. Ao fim da tarde, a poeira do Somme se tornara
Inglaterra como no versos de Rupert Brooke, morto um ano antes no mar Egeu,
quando se dirigia a Gallipoli: “If I should die, think only this of
me:/ That there’s some corner of a foreign field/ That is for ever England.
There shall be/ In that rich earth a richer dust concealed”
Enquanto o primeiro dia do Somme custava aos britânicos
57.540 baixas, a imprensa inglesa informava nas manchetes o “grande avanço das
tropas” do país. O público que lesse com atenção os jornais e revistas
encontraria, porém, no fundo das publicações as intermináveis listas com o
custo de tal sucesso. Era a oportunidade para descobrir a verdade censurada
pelos generais. Editada em Londres, seguindo o modelo da francesa
L’Illustration, a revista The Sphere publicava seu roll of
honour, com as fotos dos oficiais mortos e suas pequenas biografias. Ali estava
uma informação inconveniente.
Cem anos depois, os generais do Planalto veem o bolsonarismo
oscilar entre a busca da transparência de suas ações e as conveniências da
velha política, entre a pacificação do País e o incentivo à polarização e o
confronto. Alterna-se a escalada dos conflitos com o Congresso, o Supremo e a
sociedade civil com a contemporização. Quem trata a política como continuação
da guerra, procura aliados em vez de interlocutores. E terá inimizades em vez
do respeito de quem compartilha com ele o destino da Nação.
O chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, é um
dos guerreiros ideológicos do Planalto. Um colega seu, também general, diz que
a convivência de Heleno com o radicalismo bolsonarista pode ser explicada pelo
fato de ele acreditar ter a paternidade do atual governo.
Heleno abriu recentemente uma conta no Twitter.
Resultado: de 52 publicações feitas pelo general, 14 (26,9%) atacam jornalistas
e a imprensa. Nem um humorista, que lhe creditou uma frase inventada, escapou
do revide. Era uma brincadeira, mas o humor do general não lhe permitiu
entender a blague. Heleno desmentiu ter dito a frase como se reportagem o texto
humorístico fosse.
Seu antigo colega de Planalto, o general Santos Cruz,
distanciou-se do discurso que sugere que a imprensa seja uma força inimiga.
Mesmo quando discorda do que os jornalistas publicam, Santos Cruz é mais
comedido e civilizado na crítica.
Seu substituto, o general Luiz Eduardo Ramos,
comporta-se de forma semelhante. Mas, no fim de semana, resolveu debutar como o
mais novo ombudsman da imprensa brasileira. O ministro publicou dois tuítes
sobre o
chamado Gabinete do Ódio, o grupo de jovens assessores do presidente
que se apoderou dos ouvidos do primeiro mandatário conforme o leitor viu aqui.
Trata-se de turma audaciosa, que aconselha Bolsonaro a cortar cabelo em vez de
receber o chanceler francês.
Ramos disse em sua rede social: “Tomei conhecimento sobre
matérias divulgadas na imprensa sobre um suposto ‘Gabinete de Ódio’,
subordinado ao PR, que estaria promovendo ataques contra ministros do Governo.
Nada mais fantasioso! Conheço o trabalho sério desses assessores, com os quais
mantenho excelente relação.” E, depois, ainda completou com outro tuíte. Ei-lo:
“Ninguém pode negar ou diminuir ou papel relevante que os jovens assessores
tiveram na vitória do Pres BOLSONARO, e continuam tendo!! Parte da imprensa
tenta atingir esses Guerreiros!! A eles o meu respeito, Tercio, Matheus DIniz e
Matheus Gomes!! Prossigam na missão!”
Durante a 1.ª Guerra, a “voz anônima das ruas” fez Winston
Churchill, então Lord do Almirantado, renunciar a seu cargo diante do fracasso
em Gallipoli. Ninguém imaginou então culpar a imprensa pelo desastre militar na
Turquia, com seus 50 mil mortos.
O
bolsonarismo patina com a popularidade atolada em 30%. Suas
facções e filhos se devoram em intrigas palacianas, enquanto os generais, a
exemplo do chefe, lançam uma nova ofensiva contra a imprensa. Aos que desejam
saber a verdade que Ramos e Heleno procuram preservar dos olhos de muitos,
basta seguir o exemplo dos cidadãos britânicos. A leitura atenta dos jornais
revela muito mais o que se passa no teatro de operações do Planalto do que o
twitter dos generais.

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