Patrulhar grandes cidades brasileiras pode constituir, sem
dúvida, atividade de grande risco. Mas não vêm só de criminosos as ameaças às
vidas dos policiais.
Em 2018, ao
menos 104 agentes cometeram suicídio no país, número que supera o das
mortes decorrentes de confronto em serviço, 87. Tais dados, reunidos pela
primeira vez em âmbito nacional, constam do recém-lançado 13º Anuário
Brasileiro de Segurança Pública.
Os organizadores do levantamento afirmam, porém, que a
quantidade de suicídios tende a ser muito maior, pois há estados que não
reportam suas estatísticas, a fim de esconder o problema, e outros que nem
sequer contabilizam os casos.
Jogar luz sobre a questão é decerto o primeiro passo para
enfrentá-la. É o que começa a fazer o estado de São Paulo, por meio de estudo
produzido pela ouvidoria da polícia que traz detalhes de uma situação
alarmante. Em 2017 e 2018, nada menos que 17 policiais civis e 39 militares
tiraram a própria vida.
No biênio, o suicídio foi a principal causa de vitimização
entre os agentes civis e a segunda entre os PMs —atrás apenas dos homicídios
ocorridos em períodos de folga.
As taxas de mortes por 100 mil indivíduos, considerados os efetivos de cada uma das corporações, foram de 30,3 e 21,7, respectivamente, bastante acima do anotado na população do estado, 5,8.
As taxas de mortes por 100 mil indivíduos, considerados os efetivos de cada uma das corporações, foram de 30,3 e 21,7, respectivamente, bastante acima do anotado na população do estado, 5,8.
Tal discrepância sugere que o suicídio dos policiais tem
relação direta com as condições de vida e de trabalho desses profissionais, que
lidam diariamente com uma realidade repleta de dores e tristezas. Homicídios,
perseguições, estupros, assaltos e brigas, entre outras situações violentas,
fazem parte de seu cotidiano.
A situação não raro é agravada por condições precárias de
trabalho —que incluem déficit de profissionais, salários sofríveis e delegacias
sem estrutura— e por uma cultura institucional que valoriza a resistência
diante de adversidades.
Completa o quadro de dificuldades a omissão do poder público
com relação à saúde mental dos agentes. No caso da Polícia Militar, a estrutura
existente abrange apenas 35% das unidades do estado. Já na Polícia Civil ela
nem mesmo existe: há duas psicólogas e duas assistentes sociais para um efetivo
de 28 mil pessoas.
O trabalho da ouvidoria precisa dar origem a providências, e
a assistência psicológica e psiquiátrica a esses profissionais deve estar entre
as primeiras preocupações.

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