Numa sucessão vertiginosa de acontecimentos, o Peru
mergulhou num impasse político que incluiu troca de presidentes,
Congresso dissolvido e eleições antecipadas para janeiro de 2020, cerca de um
ano antes do previsto.
As raízes da crise que eclodiu neste semana remontam ao
pleito geral de 2016, que fraturou a relação entre Legislativo e Executivo, e
aos desdobramentos de um escândalo de corrupção envolvendo a empreiteira
brasileira Odebrecht.
Há três anos, o liberal Pedro Pablo Kuczynski, ou PPK,
conquistou a Presidência ao vencer por margem apertadíssima Keiko Fujimori,
filha do ex-presidente Alberto Fujimori —hoje preso por corrupção e violação
dos direitos humanos. No Congresso, contudo, a oposição obteve maioria.
A relação entre os dois Poderes, tensa desde o início,
degringolou rapidamente rumo à paralisia institucional. PPK foi acusado de
receber propina para favorecer a Odebrecht quando ministro e, diante de um
provável impeachment, renunciou
em março do ano passado.
Assumiu seu vice, Martín Vizcarra. Apesar da mudança na
chefia do Executivo, a dinâmica com o Congresso pouco se alterou.
Vizcarra se valeu então do clima de indignação popular para
tentar reformar o sistema político peruano. Promoveu um referendo cujo
resultado impediu os legisladores de serem reeleitos. Para resolver os impasses
que bloqueavam a administração, propôs que as eleições fossem antecipadas.
A oposição fujimorista foi contra. Com membros alvejados por
denúncias de corrupção (a própria Keiko se encontra hoje presa preventivamente),
o grupo teme perder capital político num momento de grande desprestígio
popular.
Nesta semana, a disputa chegou ao Tribunal Constitucional, a
mais alta instância da Justiça. Enquanto os oposicionistas se articulavam para
nomear 6 novos membros da corte, de um total de 7, Vizcarra dissolveu o
Congresso. A manobra, embora tenha respaldo na Constituição peruana, não é de
toda isenta de controvérsias, porém.
O Parlamento revidou colocando a vice-presidente, Mercedes
Aráoz, no comando do país. Ela, no entanto, desistiu
em menos de 24 horas.
A balança, agora, parece pender para o lado
governista. Mas, seja qual for o desfecho, a contenda mostra como o embate
político extremado, a testar os limites da legalidade, pode ser perigoso para o
funcionamento da democracia.

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