O governo vai gastar R$ 10 milhões para promover o chamado
pacote anticrime. As peças publicitárias foram apresentadas ontem, em
solenidade no Planalto. Usam viaturas cenográficas e linguagem sensacionalista,
no tom dos programas policiais de TV.
A campanha tem lances de propaganda enganosa. Um dos
anúncios trata da prisão em segunda instância, que os deputados já retiraram do
texto original. Quem assistir aos comerciais ficará com a impressão de que a
proposta está prestes a ser aprovada.
O pacote tem sido criticado por proteger policiais que
cometem excessos “sob escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Ontem o
ministro Sergio Moro insistiu que isso não significa uma licença para matar.
Faltou combinar com o presidente Jair Bolsonaro, que voltou a defender PMs
acusados de execuções.
“Muitas vezes, a gente vê um policial militar que é mais
conhecido ser alçado para uma função e vem a imprensa dizer: ‘Ele tem 20 autos
de resistência’.
Tinha que ter 50! É sinal de que ele trabalha”, disse. O
presidente contou que batia ponto na cadeia de Benfica para visitar PMs presos.
Ele acrescentou que muitos seriam vítimas de “ativismo” da Justiça e do
Ministério Público. “Um absurdo isso daí!”, esbravejou.
Desde a campanha, Bolsonaro repete que o policial que mata
“tem que ser condecorado e não processado”. Ontem a Polícia Civil prendeu
quatro pessoas ligadas ao PM reformado Ronnie Lessa, acusado de executar a
vereadora Marielle Franco. De acordo com as investigações, o grupo jogou a arma
do crime no mar.
A suspeita de ocultação de provas também ronda a morte da
menina Ágatha Félix, de oito anos. A PM alega que ela morreu durante tiroteio,
versão contestada pela família. Dos onze policiais chamados para a
reconstituição do crime, só dois apareceram. O caso mobilizou o país, mas
Bolsonaro se recusa a comentá-lo.
Ontem a PM prometeu apurar o relato, publicado pela revista
“Veja”, de que agentes teriam ido ao hospital para pegar a bala que matou a
menina. Em Brasília, Moro foi questionado sobre o silêncio do presidente. “A
pergunta não é apropriada”, desconversou.

Nenhum comentário:
Postar um comentário