Há muito mais na economia do que apenas os indicadores ou
decisões da área estritamente econômica. Ela depende, para ter um bom
desempenho, de inúmeros sinais e situações que estão em outros setores. Uma
parte das expectativas de retomada do crescimento está condicionada ao
andamento da agenda legislativa, mas o presidente tomou a decisão de não formar
uma base parlamentar estável, e por isso o governo tem improvisado no
relacionamento com o Congresso. Além disso, Bolsonaro tem uma lista de
prioridades idiossincrática, muitas delas vão no sentido oposto ao que deveria
para alavancar o crescimento.
Na terça-feira passada, Bolsonaro se reuniu com garimpeiros,
demonstrou saudosismo em relação ao tempo em que eles atuaram de forma
predatória e sem limites legais, e ainda falou a frase depreciativa sobre “a
árvore”. Esse tipo de cena tem o efeito de derreter intenções de investimento.
A grande mineração exige hoje regras de conduta muito severas porque presta
contas aos stakeholders, ou seja, a todas as partes interessadas. Os erros
colossais da Vale elevaram o nível de exigência da atuação dessas empresas no
Brasil. É hora de mostrar mais aderência aos valores que desembarcaram no mundo
dos negócios. O garimpo é o oposto de uma produção sustentável dos recursos
minerais.
Em bases quase diárias, o governo dá sinais de não ter uma
agenda de superação dos obstáculos ao crescimento. O ministro do Meio Ambiente
repete ideias e toma decisões antiambientais. O ministro da Educação trava uma
batalha na mídia social em mau português contra fantasmas ideológicos. O
ministro da Cidadania se dedica a restabelecer a censura na área cultural. O
ministro das Relações Exteriores se enclausura em ideias estreitas e revoga as
virtudes conhecidas da diplomacia brasileira. Nada disso é economia e tudo é
economia. Os sinais que sustentam a confiança dependem de que o país esteja
atualizado com as tendências do mundo nas áreas ambiental, educacional,
cultural e diplomática. O obscurantismo em qualquer desses setores é um pacto
antiprogresso. O que grandes investidores se perguntam é para onde está indo o
país, se a educação preparará os estudantes para os desafios do século XXI, se
as preocupações ambientais e climáticas estão sendo incluídas na agenda
pública, se a diplomacia está ampliando as relações internacionais, se a
política cultural expressa a diversidade do país.
O governo está emitindo sinais difusos em áreas diferentes
que convergem para a mesma mensagem: a de que o país está em retrocesso social
e político. E querem que a economia progrida sozinha tirando o país do atoleiro
em que se encontra. Ela é parte de um todo. A ideia de que se pode modernizar a
economia em um governo de valores arcaicos é um contrassenso.
A reforma da Previdência passou por várias etapas, sendo
desidratada no meio do caminho, e enfrentando muitos sustos. Se caminhou foi à
despeito do presidente da República, que se mobilizou apenas para a defesa
corporativista que fez ao longo da vida. A causa de adaptar o sistema de
pensões e aposentadorias à realidade demográfica e fiscal brasileira foi
abraçada por líderes de partidos que não são governistas e foi votada até por
alguns parlamentares da oposição, com um custo político alto. A área econômica
teve alguns valorosos combatentes no esforço de entendimento com o Congresso,
mas a articulação política não aplainou o terreno para os técnicos da economia.
Pelo contrário, as muitas falhas na articulação tornaram o caminho mais
pedregoso.
O Ministério da Economia fala em muitas reformas. Elas são
ambiciosas: mudariam a estrutura do gasto público e implantariam um novo
federalismo. O presidente se mobiliza pela liberação de armas, na defesa de
torturadores e da ditadura, em favor do garimpo e exploração mineral em terras
indígenas, contra a proteção do meio ambiente e na garantia de vantagens para
os filhos. A agenda da economia é uma retórica superlativa ainda sem projetos
elaborados. A do presidente tem iniciativas, decretos e MPs que dispersam a
atenção do Congresso. O progresso é muito mais do que um indicador e a economia
jamais será uma ilha.

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