A Argentina vai experimentar de novo o mesmo caminho de
ampliar os gastos, estimular o crescimento, não pagar a dívida externa. Esses
foram os sinais dados ontem pelo novo presidente Alberto Fernández. O discurso
peronista volta com força diante do fracasso do liberalismo defendido pelo
ex-presidente Mauricio Macri. O truque do discurso de Alberto Fernández é o
mesmo de qualquer político: colocou toda a culpa nos últimos quatro anos. É
verdade que Macri fracassou na economia, mas Cristina Kirchner deixou um país
já com a crise instalada.
A esperança é sempre tentadora em recomeços, principalmente
quando o ritual democrático é respeitado. O Congresso estava lotado de
peronistas cantando diante do novo presidente e sua vice eleitos pelo voto
direto. Podiam comemorar, era a hora da vitória depois de terem saído do
governo há quatro anos. O presidente derrotado em sua tentativa de permanecer
no poder, Mauricio Macri, ouviu respeitosamente o canto dos vencedores. No
discurso de posse, Fernández exibiu os dados inegáveis da crise e prometeu
derrotá-la com os remédios nos quais acredita.
Ele avisou que primeiro quer fazer a economia crescer para
depois pagar os credores e disse que o país já está em “default virtual”. Ainda
que o FMI tenha mandado mensagem simpática avisando que quer se entender com o
novo governo argentino, o fato é que os juros não podem ser pagos por falta de
dólares em caixa. Só neste dezembro são US$ 5 bilhões para quem tem reservas
líquidas que podem estar abaixo de US$ 10 bilhões. De qualquer maneira, apesar
de ele ter falado em renegociação, é possível que o novo governo deixe para
anunciar qualquer medida em relação à dívida junto ao FMI e credores privados
depois de uma negociação com o Fundo.
O novo governo prometeu um plano de combate à pobreza, mas
também diz que vai estimular a produção, decretou emergência na saúde, avisou
que fará acordos com os trabalhadores, industriais, produtores rurais. Não
disse como pretende combater a inflação, que na Argentina tem sido um problema
crônico.
O país, na verdade, há muito tempo não tem inflação sob
controle. Em 2002, chegou a 40% ao ano. Foi o ano da crise que levou à
moratória. Caiu para 3% em 2003, mas logo tornou a subir e em 2005 já tinha
voltado aos dois dígitos, para 12,3%. Cristina tomou posse em 2007 e em 2014 o
aumento de preços já tinha disparado para 23,9% ao ano. De 2015, não há
estatística oficial, porque ela fez uma intervenção no Indec, o IBGE de lá, que
comprometeu toda a credibilidade do índice. Como não vencia a febre, tentou
alterar o termômetro. Macri revogou essa intervenção no índice e os preços
subiram em parte porque o registro estava subestimado anteriormente. Além
disso, estava represada em vários preços, como nos de energia. Essa é a
história inteira. Ontem o presidente Alberto Fernández disse que é a primeira
vez desde 1991 que a inflação chega a 50%. Isso é verdade, mas apenas parte
dela.
O grande dilema argentino é que reduzir a grave crise social
é urgente, mas sem estabilidade econômica qualquer plano de transferência de
renda aos mais pobres está fadado ao fracasso. Deixar de pagar a dívida externa
é mais do que razoável. É determinado pela realidade de não haver dólares. Mas
o país precisa voltar a ter moeda. Hoje o peso serve para o pagamento das
transações, mas não como reserva de valor, ou poupança, como explicou Carlos
Melconian no “Clarín”. O peso é uma meia moeda, com apenas uma parte das
funções clássicas.
Alberto Fernández deu também outro recado: vai mandar ao
Congresso um projeto de reforma do Judiciário. Afirmou que a Justiça, em vez de
julgar, “perseguiu”. E o fez “com agentes de Estado infiltrados e anuência da
mídia”. Com uma vice que responde a nove processos, essa será mesmo uma
perigosa batalha travada no coração da democracia argentina.
Não há tarefas fáceis pela frente, na economia e na
política. Mas como qualquer presidente eleito ele tem a força do voto com ele
neste começo. Que saiba usar com sabedoria seu capital político. E saiba que
valores quer preservar. Os aplausos o cobriram quando disse: “vamos ouvir os
movimentos sociais, como a juventude, o ambientalismo, o feminismo, os setores
acadêmicos”. Nesse aspecto, um país normal.

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