O preço
da carne de boi dominou o carnaval de escárnio e memes das redes
sociais das últimas semanas. Tomou o lugar do dólar como motivo de piada e tema
da análise econômica popular, por assim dizer.
O preço do boi gordo teve aumentos exorbitantes desde
novembro; o do porco subia assim desde abril.
Esses saltos mexeram apenas um pouquinho com a média da
inflação recente, embora ainda assim a carestia da carne reduza o bem-estar e
implique restrição do consumo de um alimento simbólico, sinal de vida
remediada.
A inflação geral (IPCA) foi de 3,3% nos últimos 12 meses. O
preço da comida que a gente leva para casa, “alimentação no domicílio”, no
dizer do IBGE, aumentou 3,5%. A inflação vai bem, mas o povo vai mal.
A inflação do bife não é, portanto, símbolo de uma inflação
da comida. Não foi o caso da inflação do tomate, que era assunto pop e sinal
expressivo de grande irritação com o custo dos alimentos pouco
antes do Junho de 2013.
antes do Junho de 2013.
Naquela época, abril de 2013, o IPCA da “alimentação no
domicílio” aumentava ao ritmo de 16% ao ano (ante um IPCA geral de 6,5% ano).
Até abril de 2016, houve outro repique do IPCA da comida, também de 16% ao ano
(o IPCA geral subia 9,3% ao ano).
Note-se de passagem que, desde o começo da recessão, o preço
da eletricidade subiu quase o triplo do preço das carnes; o preço do
gás, quase o dobro.
De qualquer modo, o preço do boi gordo aumentou 45% em um
ano. Jamais esteve tão alto desde pelo menos julho de 1997 (início da série do
Cepea, da Escola de Agronomia da USP, ajustada pela inflação), alto além do
normal, muito além da média histórica. Esteve anormalmente baixo entre o
segundo trimestre de 2017 e o segundo trimestre deste 2019. Coisa parecida, em
escala menor, aconteceu com o preço do porco.
Foi mais ou menos o que disse a ministra
da Agricultura, Tereza Cristina: “A arroba [do boi] não vai baixar mais
ao patamar em que estava”. Causou indignação, mas parece certa. Como o
padrão das declarações do governo de Jair Bolsonaro vai do disparate ignaro à
desumanidade atroz, a ministra apanhou por conta.
Claro que a fama dos seus colegas fazendeiros que
querem dar
cabo da floresta e dos índios não ajuda, para dizer o mínimo
sarcástico.
Problemas no mercado mundial e nas mumunhas do comércio
exterior levaram o preço da carne à estratosfera, o que não dá para comentar
aqui e agora nestas colunas. Mas convém reafirmar que a inflação vai bem, mas o
povo vai mal.
Desde fins de 2014, o salário médio subiu pouco menos do que
a inflação: caiu, em termos reais. Caiu ainda mais para o povo miúdo, pois a
desigualdade de rendimentos aumentou na crise.
Nesses anos, quase todos os empregos
novos (o saldo) são por “conta própria” e “sem carteira”, duros,
inseguros e míseros. São seis anos de desemprego, medo de desemprego,
subemprego, indignidade salarial, de volta da fome, de piora e diminuição de
serviços de saúde pública e desesperança na ideia de melhoria de vida, que dirá
de ascensão social.
E daí? Inflação de comida costuma talhar a popularidade de
governantes. Mas não há inflação de comida, apesar do bife de ouro. Não há
inflação alguma, aliás. O Banco Central pode talhar os juros de novo nesta
quarta-feira (11), por favor.
Há, porém, sinais de irritação (o escárnio com o bife e o
dólar) e angústia estafada com emprego e salário ruins, crise que não vai
passar tão cedo, apenas anos depois de o PIB começar a andar.
Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em
administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

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