Greta Thunberg é uma “pirralha” com cabeça de adulta. Jair
Bolsonaro é um adulto com cabeça de pirralho. Foi com essa expressão que, na
semana passada, ele se referiu a Greta, ativista sueca de 16 anos de idade,
ícone mundial na luta pela preservação do meio ambiente, eleita pela revista
americana “Time” como “Personalidade de 2019” e indicada para receber o Prêmio
Nobel da Paz desse ano. O pirralho grandão falou o que falou, mais uma vez,
diante do Palácio da Alvorada, onde costuma ficar tirando selfies com meia
dúzia de gatos pingados de apoiadores. Cercado pela imprensa, ele se irritou
com perguntas sobre o asassinato de dois indígenas no Maranhão. “Qual o nome
daquela menina lá de fora ? Greta! Já disse que índios estão morrendo porque
defendem a Amazônia. Impressionante a mídia dar espaço para uma pirralha dessa
aí, uma pirralha”. A história correu imediatamente pela mídia e redes sociais,
aqui e no exterior. Na quarta-feira 11, ao saber que Greta era destaque na capa
da “Time”, o presidente do Brasil, certamente com inveja de ter sobre ele os
holofotes do mundo queimados enquanto os dela estão mais acesos do que nunca.
voltou a chamá-la de “pirralha”. Não é nada difícil perceber porque Bolsonaro
se irrita com Greta, por qual motivo tenta sempre desclassificá-la e
humilhá-la: ela representa a antítese de toda a ojeriza que ele carrega em
relação à preservação ambiental. A irritação com Greta começara quarenta e oito
horas antes, na COP 25, realizada em Madri, quando a jovem criticou pelo
Twitter o duplo assassinato de índigenas da etnia Guajajara, em uma emboscada
no município maranhense de Jenipapo dos Vieiras: “Os povos indígenas estão
sendo literalmente assassinados por tentar proteger as florestas do
desmatamento. Repetidamente. É vergonhoso que o mundo permaneça calado sobre
isso”.
“Os povos indígenas estão sendo assassinados porque
tentam proteger as florestas do desmatamento. É vergonhoso o mundo ficar
calado” Greta Thunberg, ícone na luta pela preservação ambiental
Marco civilizatório
Ao mesmo tempo em que agride Greta, Jair Bolsonaro envia uma
medida provisória ao Congresso Nacional, que tem o bonito nome de
“regularização fundiária” mas esconde uma armadilha: a de dar aos grileiros as
terras que eles roubaram a partir de 2014. A medida será bombardeada no Senado,
conforme já anunciou o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, mas chega a ser
inacreditável a iniciativa do ex-capitão a favor da grilagem: é presentear o
ladrão com o produto de seu roubo. Greta é, dessa forma, o antídoto a tudo
aquilo para o qual o presidente fecha os olhos, isso quando não apoia
abertamente: desmatamento, queimadas, desprezo total pelos indígenas, repúdio à
preservação do meio ambiente. E, autoritário que é, Bolsonaro não consegue
assimilar que todos podem ter voz – até ele, é óbvio. Mas ela, também! Como uma
criança birrenta, o presidente não concebe a necessidade do debate, um dos
marcos civilizatórios imprescindíveis à democracia, não concebe a ideia e a
utilidade da crítica, não concebe o respeito que se deve ter em relação a
pensamentos de oposição. O seu comportamento com Greta em nada é diferente,
enfim, daquilo a que o País assistiu ao longo desse primeiro ano de sua gestão.
O lago de narciso
Mais do que caracterizar a natureza de quem envereda pelo
caminho da política, é da natureza humana os atos de conciliar, compor e
acolher. É isso que faz um pirralho virar gente grande. Bolsonaro,
contrariamente, age como se ele fosse a unanimidade das unanimidades. Feito o
personagem de Charles Chaplin em “O grande ditador”, Bolsonaro deslumbra-se
consigo e se julga dono do mundo. O planeta homenageia Greta. E daí? Ele é o
Messias! Trata-se de Narciso a maravilhar-se com ele próprio, a mirar o seu
rosto no lago (Paranoá?) e, quando muito, a escutar o eco de seu nome. Fazemos aqui
um breve resumo da mitológica lenda de “Narciso e Eco”, após a maldição que
lhes foi atirada pela deusa Afrodite, história tão bem explorada pelos mestres
da psicanálise Sigmund Freud e Jacques Lacan. Se falamos de Narciso, é porque o
narcisismo faz-se, idubitavelmente, um dos traços da personalidade do nosso
mais alto mandatário, e tanto é assim que uma manifestação absurda de
temperamento é cristalina: ele, um senhor na casa dos 64 anos de idade,
estabelece uma competição unilateral de ego, com uma adolescente de 16 anos,
que não está nem aí para as patacoadas saídas do Planalto. A irritação de
Bolsonaro é dele e consigo próprio, mas o presidente não consegue perceber esse
fenômeno. É como se quisesse, ao se irritar com Greta, mandar ao mundo o recado
de que sua paixão por árvore no chão e floresta ardendo é perfeitamente
saudável e correta. Foi nesse raciocínio enviesado que se negou a receber
verbas da Alemanha e da França para preservação da Amazônia e demitiu um dos
cientistas mais respeitados do País, o então diretor do Inpe Ricardo Galvão.
Detalhe para o divã psicanalítico: ainda que ninguém concorde com os métodos de
Bolsonaro, ele achará que concordam, sim.
É, de fato, a irrealidade causada pelo narcisismo
exacerbado.
Greta sabe que tem uma incomparável miríade de admiradores,
e com certeza até se diverte ao ver um chefe de Estado incomodar-se tanto. Esse
comportamento de Greta fica demonstrado na serenidade que ela transmite. No
episódio atual com Bolsonaro, a sua resposta foi somente a de trocar para
“pirralha” a descrição em sua conta oficial no Twitter. Troco dado de forma
lacônica e adulta, mas cortante. Troco dado de forma a denunciá-lo ao mundo.
Troco dado, a ironizar quem a ofendeu.
Ela faz a diferença, ele não
Tal acontecimento nos lembra a época em que um dos ídolos
internacionais do capitão Messias, o presidente americano, Donald Trump, disse
que Greta devia ser uma garota “muito feliz”, referindo-se à sua fisionomia.
Trump foi um mastodonte em falta de educação ao comentar dessa forma o
semblante sério mantido por Greta, assim como a sua expressão meio ausente.
Isso se dá porque ela é portadora de Síndrome de Asperger, um dos componentes
do espectro autista. Mesmo diante de tanta agressividade, ela se restringiu a
incluir a qualificação “muito feliz” em sua descrição no Twitter. Engana-se, no
entanto, quem pensa que Greta tem uma frágil personalidade. Certa vez, ao ser
indagada sobre ter de andar protegida por seguranças devido às ameças de morte
que passou a sofrer, ela declarou que esse fato tem de ser olhado como algo
positivo: “é sinal de que estamos fazendo a diferença; e aqueles que não se
importam com o meio ambiente nos olham como uma ameaça”. É com tais olhos que
Bolsonaro a vê. Ela faz a diferença, ele não. O mundo civilizado se põe
respeitosamente aos pés da adolescente.
“(Greta) conseguiu criar uma mudança de atitude
global, transformando milhões de vagas ansiedades em um movimento mundial
que pedia mudanças urgentes. Ofereceu um apelo moral para aqueles que estão
dispostos a agir e lançou vergonha para aqueles que não estão” Trecho
da reportagem da revista “Time”
Após chamá-la de “pirralha” na entrevista, Bolsonaro
ordenou, como de costume, que seus assessores e “acepipes” (desculpem,
asseclas) explicassem que nada houve de errado, pois, afinal, pirralho
corresponde à criança ou pessoa de baixa estatura. A bem da verdade, a emenda
saiu pior que o soneto. Pirralho é uma palavra de origem portuguesa, significa
mesmo criança e gente de pequena altura. Geralmente, porém, é dita em
referência à criança chata — e pelas veias da irritação a saltarem do pescoço
de Bolsonaro, foi nesse sentido que ele se valeu da expressão. Mais: Greta
Thunberg não é mais criança, tem 16 anos, está já saindo da adolescência. Mais
ainda: ela mede um metro e sessenta e três centímetros de altura. Dois
centímetros a mais, e estaríamos falando da estatura média da mulher
brasileira. Bolsonaro e “acepipes” (desculpem, asseclas), vocês estão
equivocados: a mulher brasileira não é “pirralha”.
Ursos famintos, depressão e ativismo
Nascida em Estocolmo, na Suécia, em 3 de janeiro de 2003, o
primeiro contato de Greta Thunberg com a crise climática foi na sala de aula.
Aos 11 anos de idade, um professor exibiu um vídeo com consequências do
aquecimento global — dentre elas, ursos polares famintos, condições climáticas
extremas e inundações. Nesse período, que seu pai, Svante Thunberg, descreveu
como “uma tristeza sem fim”, ela entrou em depressão. Praticamente parou de
falar e de se alimentar, quase foi hospitalizada. Para o seu bem, a família
adotou hábitos ambientalmente conscientes como deixar de consumir carne,
instalar painéis solares em casa, cultivar os próprios vegetais e desistir de
usar aviões. O tempo voou, e, atualmente, mesmo com fama global, Greta mantém
um estilo de vida simples. Escreve um diário, escuta audiolivros e gosta de
jogar Yatzy — um jogo de dados que no Brasil é conhecido como General ou Yam.
Optou pela greve escolar pela primeira vez em agosto de 2018, a contragosto dos
pais. Na ocasião, imprimiu folhetos em que estava escrito: “Meu nome é Greta
Thunberg, estou na 9ª série e em greve estudantil. Já que vocês adultos não se
importam com meu futuro, eu também não irei”. Desde então, o movimento angariou
milhões de estudantes pelo mundo.

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