Minha formação cultural se deu principalmente no século XX
recheado de rocambolescas teorias revolucionárias. De um modo geral, eram
apostas no futuro, uma inconsciente reconstrução do paraíso. Se há algo no
século XXI para o qual custo a encontrar o tom adequado de lidar é esse período
de pós-verdade, em que as evidências científicas ou não são atropeladas por
narrativas grotescas.
O intelectual francês Bruno Latour considera que esse
período foi de uma certa forma inaugurado por Colin Powell quando apresentou
falsas evidências de armas de destruição em massa, antes da invasão do Iraque.
Mas a tendência era muito mais forte, e aqui nos trópicos deságua no
terraplanismo, na mamadeira de piroca, na crença de que o filósofo alemão
Theodor Adorno escrevia as músicas dos Beatles, que John Lennon tinha um pacto
com o diabo, que o rock leva ao aborto, que por sua vez leva ao satanismo. Como
lidar? Às vezes, lembro-me da infância e dos conselhos paternos muito presentes
nos adultos mineiros: não contrariar.
Lembro-me de uma ambulância que parou na porta do vizinho,
um grupo se formou e, sem contato com os médicos e enfermeiros, alguém afirmou:
“Foi leite com manga, certamente foi leite com manga que derrubou o vizinho”.
Essa ideia de não contrariar as afirmações malucas me
acompanhou nos anos de juventude. No livro “O que é isso, companheiro?”, relato
o caso de um louco que acordou gritando quando estávamos presos em Ricardo de
Albuquerque. Ele tentava em voz alta, desesperadamente, ajudar a encostar um
caminhão imaginário e às vezes se alarmava: “Vai bater, vai bater”.
Não conseguíamos dormir com aquele barulho. O único caminho
foi ajudá-lo também em voz alta a encontrar o caminhão. Avançamos num ritmo
conjunto até que conseguimos estacionar aquele maldito caminhão nas nossas
exíguas celas de um distrito policial.
Mas essa tática é ineficaz quando se dizem coisas absurdas
em nome do governo, sobretudo as que influenciam o destino de milhares de
pessoas, a própria realidade histórica do Brasil. Dizer, por exemplo, que a
escravidão foi boa para os negros é um título de loucura que você não apenas
pode como deve contrariar. Inclusive destituir legalmente essa nomeação. Muitos
adeptos do governo consideram apenas a economia, o combate ao crime e a gestão
da infraestrutura como pontos essenciais. O resto seriam apenas borbulhas
inconsequentes. Mas um país não se reduz à economia, à infraestrutura e ao
combate ao crime. Ele é tecido de múltiplas teias que se interpenetram.
Considerar como apenas perfumaria nossa história de
escravidão, tentar que revolvam nos túmulos nossos formadores — como Joaquim
Nabuco, mas sobretudo milhares de negros açoitados e assassinados — é
introduzir um elemento de corrosão que apodrece todo o tecido nacional.
Se tivesse tempo, iria me divertir demonstrando que Theodor
Adorno jamais escreveria um verso como esse: “Help, I need somebody”.
Essa loucura é do gênero que não se precisa tanto
contrariar. É preciso reservar um espaço para as de Bolsonaro. Elas repercutem
na imagem do Brasil. Quando um presidente acusa um astro de Hollywood de
financiar queimadas, ele nos expõe à autocombustão no conceito internacional.
Economia e infraestrutura não se fazem sozinhas. Política de
segurança é algo muito complexo para se focar apenas na repressão. Andei por
Paraisópolis para realizar um programa de televisão. O governo estadual afirmou
que cumpriu o protocolo, e isso não foi entendido pelas pessoas. Se cumprir o
protocolo leva à morte de nove jovens, alguma coisa estava errada nesse
protocolo.
Certamente algo terá de mudar, assim como a própria ideia
desses bailes funks chamados pancadões precisa ser, de uma certa forma,
adaptada à vida das pessoas. Senti em Paraisópolis que há pessoas doentes,
falei com muitos idosos, vi muitas gestantes. Elas não frequentam baile funk,
mas são atingidas por ele. Não tenho uma saída no bolso. Aliás, fui ouvir as
pessoas em que sentido apontam para se equacionar o problema.
Andamos por um território sensível cada vez mais acossados
pela realidade, e os terraplanistas investem contra o rock e o satanismo. No
século passado, os grandes, os chamados loucos de Deus, deixavam todos os
confortos materiais para seguir sua orientação religiosa. O século virou, e
hoje os loucos entram no governo e já nem se lembram mais de Deus, siderados
que estão no combate ao satanismo. Da busca da verdade à pós-verdade o novo
século me desconcerta.
Artigo publicado no jornal O Globo em 09/12/2019

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