‘Todo dia a esquerda cancela alguém, mas não vemos
propostas. Virou radicalismo de Twitter’, diz Rosana Pinheiro-Machado
Ao longo de vários anos de pesquisa de campo, a
antropóloga Rosana
Pinheiro-Machado esteve em contato com trabalhadores informais da base
da pirâmide brasileira, ouvindo suas demandas e anseios. Ela também vem
pesquisando de perto as manifestações e movimentos que explodiram a partir de
junho de 2013, passando pela nova geração de feministas, os encontros de jovens
da periferia em shoppings que
ficaram conhecidos como rolezinhos, as ocupações nas escolas
pelos secundaristas, a greve dos caminhoneiros… Professora da Universidade de
Bath (Reino Unido) e colunista do
site The Intercept, ela transformou o que acumulou
em anos de pesquisa em seu novo livro, Amanhã
vai ser maior: O que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a
crise atual (Editora Planeta).
Na obra, a pesquisadora analisa, a partir de um ponto de
vista progressista, como um Brasil que não se sentia mais representado pela
classe política e ocupou massivamente as ruas em junho de 2013, pedindo por
mais direitos e menos corrupção, chegou em 2019 tendo o ultradireitista Jair Bolsonaro como
presidente da República. Apesar de considerar o cenário atual desolador,
acredita que aqueles protestos representaram o marco de uma “revolução” na
estrutura social do país, com “uma indignação e uma vontade por politização e
processo democrático imenso”. É por causa dessa nova geração e dos movimentos
que ganharam força com ela, como o feminista, o LGBT e o negro, que é possível
ter esperança.Em entrevista ao EL PAÍS, ela ainda faz um alerta ao campo
progressista: é preciso deixar de lado certa postura rancorosa, revanchista e
vingativa que gerou uma cultura do cancelamento nas redes
sociais. O futuro, diz ela, ainda está em disputa. Isso passa por voltar às
periferias, incorporar novas demandas e novos atores aos quadros dos partidos,
apostar por novas propostas e sair em busca dos eleitores que optaram pela
extrema direita. Um trabalho que deve ser online (nas redes) e offline (nas
ruas).
Pergunta. Por que amanhã vai ser maior?
Resposta. Não só o Brasil, mas o mundo todo, tem
ido constantemente às ruas no século XXI. Com características muito
diferenciadas, respondendo a demandas nacionais fundamentalmente, mas colocando
as pessoas nas ruas de forma que os movimentos tradicionais não compreendem.
Então, por um lado, [vai ser maior] por causa deste Brasil que é insurgente e
politizado desde junho de 2013 e com o advento das novas tecnologias. Por outro
lado, há esperança por conta da luta
de vários movimentos que surgiram após junho de 2013. São movimentos que já
existiam, como o feminista e o negro, mas vemos a formação de uma nova geração
extremamente politizada. Não víamos antigamente nas periferias, e em vários
lugares do país, uma geração de meninas feministas. É algo completamente
inédito na sociedade brasileira. Essa juventude está
sendo disputada à esquerda e à direita.
P. Como enxerga essa nova geração? Que outras
diferenças enxerga entre esses novos movimentos e os antigos?
R. Vejo como um processo. Essa explosão no
Brasil eu chamo de revolução, mas no sentido antropológico, de uma quebra de
estrutura social, não no sentido da teoria política. Junho de 2013 não
proporcionou isso, mas é um marco, fruto de processos democráticos e lutas
históricas que foram ocupando o poder, se institucionalizando, criando espaços
nas escolas e as cotas, reformando currículo… É todo um Brasil que se preparou
para isso. A maturidade da Internet nos anos 2010 também proporciona o
surgimento dessa subjetividade insurgente. E, para mim, a grande diferença é
que esta geração é muito mais autonomista, muito mais democrática, com muitos coletivos.
Você vai numa escola e vê 10 grupos feministas, não apenas um DCE
centralizador. É uma geração que se expressa de maneira muito mais horizontal.
Não é perfeito, a gente sabe de todos os conflitos e contradições que existem,
mas há uma lógica muito mais democrática e horizontal. E também pouco
partidária. De alguma maneira esta geração inclusive rejeita os partidos.
P. Como conciliar esse novo Brasil com o aquele de
centrais sindicais e partidos fechados?
R. Esse é o grande conflito. Você tem a CUT, mas
muitas vezes essa nova geração não quer ir a um protesto com a bandeira da CUT
ou mesmo do PT. E há
uma esquerda que não consegue ver os frutos e sementes de Marielle Franco.
É uma esquerda institucionalizada, que sofreu um golpe, é verdade, mas que não
consegue abarcar essas novas lideranças e novos movimentos. Vai para a rua com
caminhão de som, mas estamos falando de uma geração totalmente contrária ao
caminhão de som.
P. Quais são as implicações políticas?
R. O PSOL se
abre um pouco mais para isso, mas quem são os novos quadros do PT? Muito
difícil você reivindicar novas juventudes no partido. A gente precisa de um
quadro de renovação no próprio PT, ele ainda é o maior partido do Brasil. Há
uma carência de novas figuras. É preciso ampliar, renovar mesmo. E há uma
insegurança da esquerda com essa geração que ocupa as ruas. Não raro a esquerda
culpa junho de 2013 por tudo que aconteceu, já que não controla essas pessoas,
não é algo centralizado. É muito mais fácil acusar de golpista e não fazer mais
nada do que trabalhar politicamente. Precisa negociar, disputar essas multidões,
e não culpá-las. A esquerda até quer a multidão, desde que seja controlada por
bandeiras. Se não for, ela se torna um risco. Isso é o oposto de um processo de
politização e da camaradagem, o que significa trabalhar dentro de uma lógica
universal, de amor.
P. Mas esse é um problema exclusivo da
esquerda, ou também do centro e centro-direita mais tradicionais e que
implodiram ainda mais nas últimas eleições? A classe política e os partidos
como um todo operam na mesma lógica, com pouca transparência e dando pouco
acesso a dinheiro e cargos de poder para os novatos…
R. É um problema da classe política de modo
geral. Mas, ao mesmo tempo, vemos o MBL [Movimento
Brasil Livre], que cresceu absurdamente com um discurso juvenil, com uma
estética jovem, subversiva… Mas essa crise institucional partidária ficou
escancarada em 2013. Já não havia engajamento partidário há muito tempo. A
crise é profunda, há uma indignação e uma vontade por politização e processo
democrático imenso. Tenho diferenças
ideológicas com correntes como o Renova ou MBL, mas acho extremamente
positivo que esses diferentes grupos transversais se apropriem da política. O
Muitas e a Bancada Ativista estão conseguindo inovar dentro de uma lógica
partidária. São movimentos que mostram o esgotamento generalizado do modelo
partidário, mas que conseguem incorporar essas novas demandas, apesar das
contradições. A população não se vê naquele modelo, então você tenta fazer algo
mais transversal e entra na lógica partidária. Como isso funciona na prática é
difícil, como vem sendo esse
conflito entre a Tabata do Amaral [do Acredito] com o PDT.P. A
socióloga Angela Alonso, pesquisadora do CEBRAP e professora da USP, vem
estudando as manifestações desde 2013. Ela rebate
a ideia de que sejam espontâneas e mostra como grupos que já vinham se
formando anos antes alavancaram esses atos. Afinal, qual é o papel da Internet
para que essas manifestações ocorram?
R. Tenho até dificuldade de compreender essa
ideia de manifestação espontânea. Eu também não concordo. A Internet ajuda no
contágio, na explosão, mas sempre tem alguém por trás. Os grupos de direita
estão organizados desde os anos 2000 e começam a ver oportunidade e a se
apropriar de slogans como “vem pra rua”, “hospital padrão Fifa”… A greve
dos caminhoneiros foi muito mais um pavio que se acendeu e explodiu, com um
papel do WhatsApp muito forte. Os rolezinhos, que começaram em 2013
e ganharam força em 2014, era uma organização de jovens via grupo de Facebook.
Mas aquilo refletia um momento da Internet que não existe mais.P. O
que mudou?
R. Não tínhamos filtros bolha nas timelines. Com
os algoritmos fica muito mais difícil conseguir essa mistura que tivemos em
junho de 2013. A Internet mudou. Por outro lado, você pode ter coletes
amarelos, greve dos caminhoneiros… Com pautas específicas e com multiplicidade
de vieses ideológicos. Isso vai acontecer mais ainda. Vamos ainda ver a revolta
do Uber e vai ficar todo mundo dizendo que eles são fascistas (risos).P. Você
parece enxergar essas manifestações recentes como algo positivo, mas elas
também podem ser canalizadas por forças de extrema direita, como vem
acontecendo.
R. Eu começo o livro falando sobre esses
momentos mais paradigmáticos e que, de alguma maneira, mudaram o mundo. Houve
um alerta de que as coisas não estavam boas. E a partir dali houve uma mensagem
que a extrema direita acabou se apropriando. Mas depois, quando critico a
esquerda, explico que a direIta está se organizando desde os anos 2000,
com think tanks e organizações bilionárias por trás.
Absolutamente nada é espontâneo. Quem foi atacado por blogueiros de direita
como Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino ou Reinaldo de Azevedo já sabia,
mesmo antes de 2013, que havia uma horda fascista pronta. O discurso
antipetista foi sendo forjado.P. Quais são as características
dessa extrema direita? Ela é diferente da extrema direita de antigamente?
R. São as mesmas ideias, citam
os mesmos autores fascistas para dizer que há um colapso da civilização
ocidental. Há supremacistas, masculinistas, anarcocapitalistas…
E brigam entre eles todos, mas querem destruir um inimigo em comum. Estão
usando o YouTube e blogs há muito mais tempo e oferecem respostas com raiva e
indignação. O Brasil entrando numa crise profunda, multidimensional, econômica
fundamentalmente, e eles chegam para dizer “olha, o problema é que tudo foi
dado para a feminista e nada para você, trabalhador”. Isso se alinha muito bem
com os evangélicos e a tradição religiosa que aponta para o problema da família
e da moral em colapso. Passou desapercebido desse mundo establishment que
colapsou e ninguém mais sabe como voltar.P. Todos esses movimento de
extrema direita do mundo tem em comum uma pauta antifeminista e contra os
avanços nos costumes muito forte. Significa então que algo de fato se moveu na
sociedade? Essa não é a boa notícia?
R. A segunda metade do século XX, principalmente
a partir de 1968, trouxe grandes progressos para os direitos civis, das
mulheres e da população LGBT, mas essas conquistas históricas tiveram reação.
Esse é sempre um processo de ação e reação. Michael Kimmel, um sociólogo de que
gosto muito, escreveu
sobre o “homem branco raivoso”. Ele termina a introdução dizendo que se há
uma curva ascendente na história da humanidade é a conquista das mulheres, e
que essa curva continua ascendente. São muitas as conquistas, mas como a gente
é soterrado pela vitória da extrema direita, não conseguimos enxergar as
conquistas dessa juventude e que também elegemos a maior bancada feminista, a
primeira deputada indígena… E nem acho que a extrema direita seja só uma reação
a isso, as duas coisas estão coincidindo e está muito em disputa ainda. O capítulo
do meu livro que resume isso é “a extrema direita venceu, as feministas
também”. Há esse avanço das lutas por modos de vida e é dali que vem alguma
esperança de conquistas.
“A direta está se organizando desde os anos 2000,
com think tanks e organizações bilionárias por trás.
Absolutamente nada é espontâneo”
P. Se é uma disputa, o lado obscurantista pode
acabar ganhando. Como o campo progressista deve se organizar?
R. Em primeiro lugar precisa disputar as
pessoas, online e offline, e parar com a ideia de que existe uma cisão entre os
dois. Você tem
que voltar para a periferia para ver que a pessoa está sendo assaltada na
parada de ônibus às onze da noite e que quer segurança pública, mas também
precisa saber disputar as redes dentro de uma perspectiva de diálogo. Quando as
insurgências e contradições vierem, e todos os trabalhadores trazem
contradições, é preciso trabalhar para recrutar essas pessoas e trabalhá-las politicamente.
Mesmo antes das fake news a direita já fazia isso muito bem. A
gente precisa fazer material de qualidade com uma linguagem popular e aberta,
que dê respostas à população. Em segundo lugar, temos que fugir do populismo.
Significa que não podemos dizer que a solução para a segurança pública é dar
armas para as pessoas, mas sim oferecer um projeto para a população. E hoje não
enxergo para onde as esquerdas estão indo com relação a projetos. Elas ainda
estão na defensiva. É horrível o que aconteceu, mas é preciso trabalhar na
construção de alianças democráticas. Primeiro para derrotar o fascismo e,
depois, para construir programa de emprego e trabalho no século XXI, na
educação, na saúde… A esquerda britânica está aí falando, está sonhando, está sendo
radical… No Brasil, a gente só vê radicalismo
da esquerda na Internet, nos xingamento e na lacração. Mas em
termos de propostas, o que há de radical, de revolucionário, na esquerda
brasileira? Que diga para um trabalhador que há um caminho? Quem tem a coragem
de ser visionário, de ousar, de ser louco, de pensar algo que ninguém pensou?
P. O ex-presidente Lula atrasa
essa renovação e esses novos projetos?
R. Lula teve um julgamento extremamente injusto.
Todo mundo tem direito fundamental a um julgamento neutro. Então o “Lula Livre”
é uma questão de justiça histórica, de democracia. Ponto. Mas a gente precisa
avançar para além de Lula, e também para além de sua própria figura. Sem
negar o papel fundamental que ele tem, mas buscando novas lideranças.
P. Acredita então que a esquerda replica
estratégias de violência nas redes que a extrema direita aplica?
R. Vejo isso entre alguns setores petistas, além
de outros da esquerda. É um processo de radicalização da agressividade, da
violência, do escracho, do cancelamento. É extremamente violento.
Neste ponto sou totalmente freiriana. Paulo Freire dizia que corremos o risco
de ter uma esquerda magoada, de corte ressentido e vingativo. E de cairmos no
mesmo rancor da extrema direita. Essa luta se transformou numa luta revanchista
e vingativa, em grande parte. Parece que não fazemos mais nada, que ficamos no
Twitter cancelando as pessoas, apontando o dedo para quem não
é puro. A gente já tem uma lógica de não recrutar “porque é fascista”. E quem está
dentro, você vai cancelando até sobrar muito pouco. Isso é
muito danoso, o oposto da esquerda. A esquerda é um princípio humanista e da
camaradagem, o oposto do cancelamento. Há varias pessoas da
esquerda e do centro que estão com muito medo de se manifestar na Internet. E
ninguém acha que está linchando, todo mundo diz que só está “criticando”. Mas é
um comportamento de manada, alguém faz um comentário, o outro vai lá responder
e em pouco tempo uma nuvem já trucidou a pessoa. Todo dia vemos um cancelamento diferente,
mas não vemos programa. Virou radicalismo de Twitter, não de proposta.
“Em termos de propostas, o que há de radical, de
revolucionário, na esquerda brasileira? Que diga para um trabalhador que há um
caminho?”
P. Existe o risco de crescimento da esquerda
autoritária?
R. É um movimento crescente, porque
provavelmente ela tenta acreditar que quem derrotou o fascismo foi uma esquerda
stalinista. Além de reeditar todos os métodos violentos, isso tem um efeito
muito perigoso nos jovens. Sou especialista em China e vejo que há um
revisionismo da história chinesa, com influencers neo-maoístas
dizendo que não há presos políticos na China. E
se alguém fala sobre autoritarismo do Estado chinês, pedem provas de que
existem presos políticos, mesmo com todas as evidências científicas e
jornalísticas indicando que a ditadura chinesa prende. É terraplanismo,
mesmo. Todas essas correntes autoritárias estão crescendo absurdamente nos
movimentos estudantis, entre jovens que sequer sabem direito quem foi Mao ou
Stalin. Então essa geração com a qual estou muito animada pode ser levada para
esse caminho autoritário.
P. Os radicais da Internet representam a maioria ou
há demanda por mais moderação no discurso?
R. Assim como vejo essa esquerda do cancelamento,
que cresce muito e que tem força, vejo um público cada vez maior sedento
e desesperado
por pessoas que sejam abertas ao diálogo. Elas não têm referências ainda,
mas estão buscando a nuance e a contradição do processo. E estão completamente
órfãs. Então precisamos de uma esquerda que ocupe os canais de comunicação e
que consiga um projeto de falar para a população, com todas as suas
contradições. Significa falar com o
caminhoneiro que quer intervenção militar e ao mesmo tempo queria Lula.
Estou convencida de que há uma demanda por essas figuras. As pessoas estão
sofrendo com essa radicalização, que não leva a nada, não é programática e não
melhora a vida de ninguém.
P. Em
entrevista ao EL PAÍS, o sociólogo de Pedro Ferreira de Souza, que
estuda a desigualdade social, afirmou que o trabalhador industrial do ABC
paulista está mais perto do topo da pirâmide, enquanto que a maioria nunca teve
direito algum. A ideia de trabalhador também ficou arcaica?
R. Isso é fundamental. Esse trabalhador ideal
não existe. Além de ser um extrato muito pequeno da pirâmide brasileira, esse
trabalhador inclusive politicamente não existe. E a tendência é de flexibilizar
cada vez mais. Se pensarmos no protótipo do trabalhador brasileiro hoje, tem
que pensar no motorista de Uber. Ele compra um carro, vai trabalhar 15 horas
por dia, está cansado, mas quer continuar tendo um carro e vai colocar alguém
para trabalhar para ele. Esses dias conheci um motorista que disse que
trabalhava 24 horas por dia e que dormia dentro do carro, para que com 30 anos
tenha dois trabalhadores para ele na mesma lógica. Não acho que isso seja 100%,
preto no branco, porque esse trabalhador também está indignado e quer
transporte público, saúde e benefícios sociais. Durante 10 anos estudei
economia informal, e o sonho de todo camelô, com todo aquele discurso
empresarial, é ter a carteirinha de trabalho. As pessoas querem ter a dignidade
de ter direitos, mesmo que reproduzam esse discurso do empreendedorismo. Existe
um processo de flexibilização, mas também temos que trabalhar para prover mais
direitos para essas pessoas. Acho que o MEI, com todas as dificuldades, foi uma
tentativa de legalizar essas pessoas e de oferecer um sistema de Previdência.
“Vejo um público cada vez maior sedento e desesperado por
pessoas que sejam abertas ao diálogo”
P. Como avalia a estratégia da esquerda ao lidar com
a reforma da Previdência?
R. Ela ficou na base da negação, com nada de
propositivo, apenas no revanchismo. Ela foi inábil e ao mesmo tempo ficou na
lógica revanchista, dizendo para o trabalhador “seu pobre, você se ferrou”.
Falando para uma população que não necessariamente será afetada pela reforma da
Previdência. A população brasileira historicamente está na economia informal,
com poucos direitos e que não vai estar lá, nas ruas, lutando por eles. O
discurso de retirada de direitos trabalhistas e da aposentadoria não
necessariamente pega nessas pessoas. De novo, é mais fácil cancelar.
Você pensa a partir de uma linguagem estrita de uma esquerda do século XX, e
não consegue responder às pessoas de carne e osso que estão vivendo as
contradições do processo. É obvio que temos que lutar pela Previdência e por
mais direitos, mas isso não faz sentido nenhum para a base da população.P. Acha
que a esquerda precisa dialogar com centristas, liberais e setores da direita?R. No
aspecto institucional temos
hoje que fazer aliança com todo mundo que quiser derrotar Bolsonaro. E isso
é fundamental em todas as frentes, inclusive com setores do PSDB que estiverem
dispostos a fazer isso. Se FHC fizer a frente, tem que se aliar inclusive com
FHC. Quando penso em uma frente, nela tem que estar inclusive uma direita que
se denomina democrática. Não é uma aliança para pensar programa, mas de frente
democrática, para barrar todos os retrocessos. E para isso é preciso dialogar
com todos.
“A violência estrutural que afeta o pobre favelado também
afeta o policial. Temos que falar com ele”
P. Como encara a morte dos dez jovens de
Paraisópolis no atual contexto político e como enxerga as reações?
R. Evidentemente se trata de mais um episódio
que se soma ao genocídio da população negra no Brasil. Essas populações sempre
foram desumanizadas, vulnerabilizadas e mortas. Parte da bolha que apoiou a
ação policial argumentava que não eram jovens se divertindo, mas sim
vagabundos, pessoas que não tinham o que fazer. Estudei os rolezinhos e
vi diferença de percepção de lazer de jovens pretos e periféricos e de jovens
de classe media alta. Quando há uma tragédia semelhante num baile de camadas
médias brancas, essa mesma bolha consegue ver as vítimas como pessoas dignas de
luto. E o outro lado é tratado com frieza e desumanidade. Tudo isso é
histórico, mas vemos agora uma legitimação inédita por parte dos governos
Federal e estadual, com um discurso oficial de que esses policiais estão
autorizados a matar e depois são coroados. Por outro lado, vi uma reação
positiva na bolha progressista, o que desperta a possibilidade de que isso seja
uma fagulha para que movimentos sociais saiam às ruas. Às vezes um fato pode
ser disparador de comoção. O grande
desafio é ver se há possibilidade maior de contágio, que não se deixe que a
pauta do próximo dia tome conta e faça a gente esquecer do ocorrido. Esse
massacre precisa continuar sendo algo que trabalhe nossa indignação contra esse
novo Brasil marcado pela bala.
P. Como os movimentos sociais e o campo
progressista devem abordar a questão da violência policial? Acredita precisam
disputar os policiais com a extrema direita?
R. Enquanto nós estivermos um estado policial,
devemos disputar os policiais. Como mostram os trabalhos do pesquisador Rafael
Alcadipani, o policial militar está entre as profissões com maior nível de
estresse, pelo contexto da violência e precariedade da profissão, atentando
contra toda a família do policial. É uma classe extremamente precarizada, que
sofre depressão e com altas taxas de suicídio. A mesma violência estrutural que
afeta o pobre favelado também afeta esse policial, ele mata por ódio e acaba ferrado
psicologicamente. Temos que falar com policiais. Claro que parte da esquerda
vai dizer que precisam desaparecer, mas a polícia existe. E existem grupos de
esquerda e antifascistas na polícia que fazem um trabalho nesse sentido.
Evidentemente tem que alargar o discurso para esses setores e trabalhar a
questão da violência estrutural.

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