Os números da última pesquisa Datafolha são bons para Jair
Bolsonaro. Indicam que a escalada de reprovação do governo teve ritmo sustado.
A sangria foi estancada. Ainda com impopularidade em andar elevado; mas
estabilizada. É notícia relevante. Isto porque não se pode esperar que o
presidente tenha altos níveis de aprovação.
Ele não é um conciliador. Não tem o perfil daquele que
amalgama sentimentos para, por exemplo, eleger-se em primeiro turno. Trata-se
de alguém que cinde; que, com sucesso comprovado, fundamenta o discurso no
confronto, que fala para grupos específicos — e que aposta na polarização
radical como condição garantidora dos votos daqueles que, sobretudo, rejeitam
seus adversários.
Este é o lugar de alguém que, ademais governante, tende a
ser desprezado por cerca de 35% do eleitorado, aprovado por algo como 30% — e
que investe em atrair, numa circunstância de disputa eleitoral extremada, a
maioria entre os que avaliam o governo como regular e que têm pavor, no caso,
do PT. Ou seja: Bolsonaro deseja — precisa — enfrentar, em clima de guerra,
Lula ou seu cavalo da vez; e teme, por falta de recursos para o debate
político, alguém como Luciano Huck.
Note-se que a rejeição ao governo é especialmente forte
entre mulheres, negros, desempregados, pobres e nordestinos. Registre-se que
este mesmo governo — percebido (não sem razão) como elitista — pagará, pela
primeira vez, o décimo terceiro salário do Bolsa Família; movimento que
pretende abraçar o cidadão pobre do Nordeste. Uma jogada político-eleitoral ambiciosa,
cujo eventual sucesso se medirá nos próximos levantamentos.
Não deixa de ser curioso que a economia seja a grande
responsável por domar a impopularidade do governo. Houve significativo aumento
na taxa de aprovação da equipe econômica. Logo a área menos afeita aos
interesses do presidente — aquela que delegou ao Posto Ipiranga, o ministro
Paulo Guedes, quase que com porteira fechada; o quase ficando na conta das
vezes em que Bolsonaro agiu deliberadamente para atrapalhar, em defesa de
interesses corporativos, na reforma da Previdência, e ao impedir, num grave
erro de cálculo político, que a reforma administrativa fosse enviada ao
Parlamento na semana retrasada.
Seja como for, será ele — o chefe — a colher os louros.
Apesar de Bolsonaro e em benefício de Bolsonaro, há uma sensação de melhora nos
ares da economia — e é essa a sensação que alivia a pressão sobre o presidente.
O homem tem sorte.
Ainda que timidamente, e sem que se possa descartar que nos
armemos para mais um voo de galinha, a modesta retomada na geração de empregos
(mesmo que informais) e os números do PIB (mais o que projetam para o futuro do
que os dados em si) mobilizam uma expectativa positiva e acariciam o humor da
população; pulso que se pode aferir no fato de que 53% entre os pesquisados
achem que sua própria situação melhorará. Como o cidadão otimista não come
volume de PIB, mas carne, firmo-me no ceticismo. Como não minimizo a influência
da (depressão) política sobre a economia, firmo-me na prudência.
Gente graúda do Ministério da Economia, no entanto, já lida
(reservadamente) com crescimento econômico de 3% em 2020. E fala-se em chegar a
2022 para além dos 4% — lugar em que, assim se estima, só muito improvavelmente
Guedes não entregaria a reeleição a Bolsonaro.
Mas: o que Bolsonaro entregaria a Guedes? Ingratidão em
curto, médio ou longo prazo?
Para os melhores interesses de seu projeto autocrático de
poder, protegerá os seus liberais econômicos — ao menos até a eleição — da fome
por sangue da ala jacobinista do governo? Ou os dará antes, capacidade de
investimento retomada, à sanha daqueles que dirigem o Palácio do Planalto e que
estiveram no cérebro das operações que derrubaram Bebianno e Santos Cruz, que
engessaram Mourão e que cooptaram, para a gramática de guerra reacionária, o
outrora moderador general Heleno e o até há bem pouco independente Sergio Moro,
convertidos ambos ao bolsonarismo também por medo de tombar?
Moro, aliás, deveria botar as barbas de molho. A pesquisa
Datafolha é boa para o ministro da Justiça a ponto de colocá-lo (novamente) em
risco. Como explicar que a taxa de aprovação do governo em matéria de combate à
corrupção — pilar fundamental da persona de Bolsonaro, área sensível ao
imaginário bolsonarista — caia pesadamente, mas que a avaliação daquele objetivamente
responsável por tal enfrentamento se mantenha estável e altíssima?
Nada cola em Moro, aprovado por impressionantes 53%. Isto
enquanto os escândalos do episódio Queiroz e do laranjal do PSL, entre outros,
vão integralmente para as costas do governo; assim como se a população
identificasse a existência de problemas no combate à corrupção apesar do melhor
empenho do herói Moro, espécie de entidade que pairaria acima até do mito
Bolsonaro.
Nada cola em Moro. Nem o governo que integra. Barbas de
molho, doutor.

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