Jair Bolsonaro inaugurou o calote com desculpa ideológica. O
Brasil deve cerca de R$ 1,7 bilhão às Nações Unidas. Se não quitar parte do
débito até o fim do mês, poderá perder o direito a voto.
O Ministério da Economia alertou o Planalto para o risco do
vexame diplomático. Ontem o presidente indicou que não pretende coçar o bolso.
“Não estou preocupado com isso”, disse. “Muitas decisões da ONU não interessam
para a gente. A gente sabe que está politizado esse negócio. Está aparelhado”,
acrescentou. Ao ser lembrado de que o Brasil pode ser retaliado, ele deu de
ombros. “Paciência”, desdenhou.
O calote internacional não é invenção do atual presidente.
Dilma Rousseff também deixou de cumprir suas obrigações com a ONU. Suspendeu os
pagamentos em 2014, no início da crise econômica. Deixou uma dívida superior a
R$ 1 bilhão, quitada no governo de Michel Temer.
A diferença entre os dois casos é que a petista culpou a
recessão e prometeu assinar o cheque quando pudesse. Bolsonaro preferiu se
vangloriar do calote. É como se ele dissesse às Nações Unidas: “Devo, não nego,
não pago enquanto puder”.
O capitão já deixou claro que não entende a importância da
diplomacia. Ontem ele quebrou uma tradição de três décadas ao boicotar a posse
do novo presidente da Argentina, Alberto Fernández. Desde a redemocratização,
nenhum chefe de Estado brasileiro havia deixado de ir a Buenos Aires para esse
tipo de cerimônia.
Em Brasília, o presidente disse estar “torcendo para que a
Argentina dê certo”. É pouco para quem tentou interferir nas eleições do país
vizinho, lamentou o resultado das urnas e se recusou a cumprimentar o candidato
vencedor.
O Brasil não tem nada a ganhar com o isolacionismo. Ao
hostilizar a ONU, Bolsonaro tentou imitar Donald Trump, que se lixa para a
cooperação internacional. O problema é que o americano também despreza quem o
bajula. Foi o que ele demonstrou na semana passada, ao ameaçar impor novas
tarifas sobre as nossas exportações de aço e alumínio.

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