PIB do Brasil ainda dança na noite dos desesperados
É um erro perguntar se o Brasil vai viver outra década
perdida na economia. Já viveu. Ao final deste ano, a renda per capita ainda será
menor que a de 2010.
E daí?
Estatísticas históricas não pagam dívidas. Agora seria o
caso de “enterrar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos” (ou abrir?),
como teria dito um marquês ao rei de Portugal sobre o que fazer depois do
terremoto de Lisboa, em 1750. Mais difícil é o que fazer diante de tantos
mortos-vivos da miséria de 2020, mas o marquês desconhecia o apocalipse zumbi.
A história da renda per capita serve para nos lembrar do
buraco em que ainda estamos, fossa esquecida nestes dias de discussões sobre
ninharias decimais e outros ruídos estatísticos do PIB, festejado com
bajulação, quando não com mentiras em TV nacional. A economia vai crescer 1,1%
ou 1,3%? É “néris e reles e nem nada de nada” (cortesia de Haroldo de Campos, o
poeta).
É verdade que, desde 2014, não havia perspectiva mais
fundamentada de algum crescimento como agora. O ano de 2020 pode ser melhor,
dados os desempenhos do segundo e do terceiro trimestres de 2019, o estímulo
artificial da demanda (“voilà”) de FGTS e afins, juros baixos e certa arrumação
da casa fiscal.
O que será esse PIB depois da gripe? Segue um exemplo, de
relatório do Credit Suisse:
“Os números mais favoráveis da população empregada e a
implementação de medidas para tornar o mercado de trabalho mais flexível no
Brasil devem mudar a composição da massa salarial nos próximos anos. Esperamos
que a massa salarial continue a apresentar expansão moderada em 2020-2021. O
principal motor desta aceleração deve ser a expansão da população empregada,
com crescimento do salário real mais modesto do que em anos anteriores”.
Isto é, a soma de rendimentos do trabalho vai crescer porque
deve haver mais gentes empregadas, não por que vão ganhar mais, também por
causa da reforma trabalhista. O salário médio ora cresce ao ritmo anual de
0,6%.
Sim, estão dadas algumas condições necessárias, quando não
típicas, de saída de recessões, como juros baixos e salários reais deprimidos.
Mas o fato é que o impulso para crescer será pequeno, embora seja difícil
prever parte da reação de empresas às condições econômicas e financeiras.
Não haverá grande investimento privado, não haverá obras
concedidas à iniciativa privada e o investimento público ainda vai minguar, o
que tem sido até comemorado por muito analista Pangloss jeca, um mercadismo do
mais vulgar. No mais, vai devagar a limpeza de entulhos regulatórios e
distorções de mercado que tornam a economia essa ineficiência cartorial
demente.
Muito importante, não se sabe até quando vai funcionar esta
nossa geringonça de direita, o “parlamentarismo branco” que governa o país na
economia e no mais contém tentativas de atrocidade maior do governo.
Jair Bolsonaro continua firme no seu propósito de “quebrar o
sistema” político-partidário e democrático. Note-se que tumulto político anual
tem sido a norma desde 2013, o que muito contribuiu para destroçar a economia.
Ainda atravessamos a “noite dos desesperados”, aquele filme
sobre os concursos sinistros de dança sem fim da Grande Depressão nos Estados
Unidos: os dançarinos que não morressem de exaustão levavam um troco para casa.
No concurso de 2020, ganha quem não morrer depois de uma
maratona 24/7 de entrega de bolo de pote para um aplicativo de restaurante.

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