Um dos problemas da democracia é que, quando a maioria dos
eleitores decide marchar para o precipício, o país cai no abismo. É o que
acontece no Reino Unido com a maiúscula vitória do premiê Boris Johnson.
A principal consequência da votação é que Johnson conseguiu
carta branca para efetivar o divórcio entre os britânicos e a União Europeia,
que agora deve ocorrer antes do final de janeiro. E é o brexit que pode ser
objetivamente descrito como um pulo no fosso.
Embora muitos britânicos achem que a separação representará
a retomada dos tempos gloriosos, nos quais o povo decidia seu próprio futuro
sem a interferência de estrangeiros e em que os bons empregos não eram roubados
por estrangeiros, ela significa, em termos mais concretos, a renúncia ao acesso
privilegiado a um mercado de mais de 500 milhões de pessoas e a inutilização da
melhor ferramenta para lidar com o problema da estagnação demográfica, que é a
imigração.
Se é tão claro assim que o brexit é objetivamente ruim, por
que tantos eleitores o apoiaram? Aí é que está o pulo do gato. A ideia de um
Reino Unido glorioso e independente circula como meme e está ao alcance fácil
de qualquer um que se disponha a apanhá-la. A constatação dos prejuízos, porém,
exige a montagem de cenários contrafactuais mais difíceis de visualizar, que
não raro envolvem muita estatística: como ficaria a economia se o Reino Unido
continuasse na UE?
Um estudo do próprio governo britânico que vazou em 2018
estimou que, com o brexit, até 2034, o PIB ficará entre dois e oito pontos
percentuais menor do que seria em caso de permanência. Com a saída nos termos
pretendidos por Johnson, o prejuízo seria de 6,7 pontos percentuais.
O diabo é que as lideranças populistas estão cada vez mais
hábeis em fazer com que os eleitores se enamorem dos memes fáceis e ignorem os
cenários só um tiquinho mais complexos.

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