O milicianismo é
uma espécie radical de antirrepublicanismo. Embora não confronte diretamente a
ordem estatal, vive em suas dobras, cooptando seus agentes e corroendo
lentamente a autoridade pública. O miliciano reivindica agir em nome da lei e
da ordem no combate à criminalidade, mas, na realidade, não passa de um tipo de
criminoso que explora as fraquezas do Estado, o medo das pessoas e as carências
da comunidade com o objetivo de vender segurança e outros serviços.
Para o milicianismo não há cidadãos ou direitos. Há uma
comunidade e indivíduos, por mais carentes que sejam, a serem economicamente
explorados. Da venda de gás aos armamentos pesados, passando pelo acesso à
televisão a cabo, coleta de lixo etc., as milícias fornecem tudo a quem paga.
Os que não se curvam à extorsão nada recebem. Os que se insubordinam são
eliminados, como ocorreu com Marielle
Franco.
A ascensão de lideranças políticas que orbitam em torno do
mundo das milícias, ou que partilham do seu ethos, estabelece novos desafios às
nossas instituições políticas. Essas não foram moldadas para lidar com esse tipo
de problema. Isso deveria ser uma questão de Justiça e de polícia.
Nossas instituições políticas foram desenhadas para
coordenar a competição política e canalizar os conflitos entre setores que,
embora divergentes, assumiram um compromisso básico com os valores da
República, em especial com a cidadania e com o governo das leis. Não é o caso
dos milicianos.
Nesse sentido, as instituições políticas conformadas pela
Constituição de 1988 vêm cumprindo o seu papel ao assegurar a alternância no
poder e certa lealdade dos diversos grupos políticos. Podem não ser as mais
perfeitas instituições, mas vêm servindo, até o presente momento, para que a
sociedade brasileira coordene suas disputas e resolva seus conflitos, de forma
pacífica.
O desafio deste momento político, no entanto, não é lidar
apenas com a dimensão reacionária e mesmo populista do governo Bolsonaro.
Isso é parte do jogo. Como esse primeiro ano de mandato presidencial
demonstrou, o sistema de freios e contrapesos, associado ao sistema de
liberdades públicas, tem servido de anteparo às medidas mais estapafúrdias e
contrárias aos pressupostos do regime republicano.
A questão que se coloca neste momento é como as instituições
têm lidado com a dimensão mais corrosiva deste governo, contígua ao populismo
reacionário, que é o milicianismo? Aqui a resposta parece não ser tão positiva
assim.
A ampliação das invasões de terras indígenas, o aumento das
queimadas na Amazônia, o crescimento das mortes pela polícia, os ataques à
liberdade de expressão, a total negligência
com o sistema educacional e o combate frontal à cultura não decorreram
de mudanças propriamente institucionais. Ao contrário, foram consequência de
uma ação paraestatal sistemática promovida pela dimensão miliciana do atual
governo que provoca a erosão, captura e desgaste das instituições.
O grande desafio da sociedade brasileira em 2020 é dar
início a uma ampla concertação político-institucional contra o milicianismo e
em favor da República.
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Agradeço a Gilberto Dimenstein, num momento em que triunfa a boçalidade, por partilhar com tanta humanidade, generosidade e humor a sua experiência com o câncer. Força, amigo.
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Agradeço a Gilberto Dimenstein, num momento em que triunfa a boçalidade, por partilhar com tanta humanidade, generosidade e humor a sua experiência com o câncer. Força, amigo.
Oscar Vilhena Vieira
Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela
Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP.

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