As crises se misturaram formando um cenário mais difícil. A
economia mundial mergulhou num grau enorme de incerteza com o avanço do
coronavírus, no Brasil um conflito institucional provocado pelo próprio
presidente Jair Bolsonaro torna nebuloso o cenário de tramitação de reformas,
alguns estados começaram a tomar decisões que agravam o rombo fiscal, as
projeções de crescimento do PIB estão sendo revistas para baixo. Nesta semana,
mais do que em qualquer outra, o mercado mundial reagiu com pânico ao
coronavírus. Isso ficou refletido no número de Wall Street, com uma queda de
12% em uma semana.
Uma onda no mercado financeiro pode refluir com a mesma
facilidade com que se forma, por isso o mais relevante é o que acontece na
economia real. Mas os fatos concretos provocados pela epidemia de doença
respiratória já têm reflexo na economia global. Este primeiro trimestre terá um
crescimento muito menor do que o que havia sido projetado globalmente. Muito
deixou de ser produzido e consumido porque os trabalhadores, e consumidores, ficaram
fechados em casa.
A Secretaria do Tesouro vai rever a projeção de crescimento
do PIB. Quando isso acontece nos bancos e consultorias é apenas um número
alterado. Este mês, o Bank of America já fez dois cortes nas projeções de
crescimento do Brasil. Primeiro, de 2,4% para 2,2%. Ontem caiu para 1,9%. O
impacto do coronavírus é só um dos fatores que levaram à queda das estimativas.
Os indicadores mais fracos do que o esperado no quarto trimestre, com retração
da indústria, do comércio e dos serviços fizeram a economia brasileira começar
o ano num ritmo um pouco menor do que se esperava. E aí veio a grande onda do
coronavírus. Quando é a Secretaria do Tesouro que reduz a previsão de
crescimento, isso tem consequência concreta. Em seguida, o governo precisa
reestimar as receitas e, portanto, as despesas que estão previstas no Orçamento
e em seguida ele faz o contingenciamento.
O dólar teve alta forte no Brasil e, apesar de a inflação
estar baixa, alguns itens certamente serão muito impactados, como sempre acontece.
O economista Nathan Blanche, da Tendências Consultoria, acredita que três
eventos empurram o câmbio: a saída do capital especulativo do país, o pagamento
da dívida externa por parte de empresas brasileiras que aproveitam os juros
baixos aqui. Esses dois primeiros fatos são reflexo de uma boa notícia que tem
sido a queda da Selic. O problema é a terceira causa: os últimos eventos — a
desaceleração da economia e a demora nas reformas — reativam o risco fiscal na
opinião dele. Esse risco vinha caindo, mas segundo Nathan, voltou a subir:
— A Previdência foi aprovada, mas não houve ainda a virada.
A dívida bruta caiu, mas se o país crescer menos do que o esperado pode haver
menos arrecadação. Não está havendo grandes privatizações e as reformas fiscais
não estão ocorrendo. E ainda há estados, como Minas Gerais, dando aumentos
salariais. Tudo isso pressiona o câmbio.
O dólar sobe porque há fatores estruturais — alguns
positivos — no Brasil. E foi isso que o ministro Paulo Guedes tentou dizer
naquela sua fala atrapalhada. Mas agora sobe porque há incerteza externa com o
assustador avanço de uma doença nova que está parando hubs de produção. E sobe
também porque no Brasil crises são criadas pelos próprio presidente Jair
Bolsonaro.
Este é o pior momento para o governo entrar nesse parafuso
de conflitos criados e de paralisias decisórias. A reforma tributária continua
à deriva no Congresso, sem que o Ministério da Economia consiga dizer qual é o
seu projeto, a reforma administrativa segue na mesa presidencial há mais de
dois meses, e as emendas constitucionais já enviadas permanecem paradas. Ou
seja, não há nada de relevante acontecendo que alimente a expectativa de
melhora no cenário brasileiro. O conflito institucional mina o resto de
confiança.
Tudo isso está acontecendo diante de um pano de fundo cada
vez mais complexo na economia internacional. O dólar já subiu 10% no ano, e a
bolsa caiu 10%. Mas movimentos no mercado se formam e se desfazem. O problema é
que a economia está indo para mais um ano de frustração de nível de
crescimento, o mundo está mergulhado na incerteza, e o presidente inventa
crises e ameaça as instituições. O risco maior é quando as crises se misturam.

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