Na semana passada, o deputado Eduardo Bolsonaro subiu na
tribuna da Câmara para insultar um grupo de deputadas da oposição, aconselhando
as parlamentares a rasparem o sovaco, “porque senão dá um mau cheiro
do caramba”.
Mais uma fake news propagada pelo Zero Três, já que a função
dos pelos axilares é justamente proteger a pele do atrito e da proliferação de
bactérias, incluindo as que causam o famigerado “cecê”.
Mas o que o tufo tem a ver com a pauta? Por que certos
homens são tão obcecados por nossas axilas?
Os cabelos no sovaco têm um nome específico: hircos. Do
latim “hircus”, que significa bode, provavelmente por causa do odor
característico do animal. O bode —assim como os pelos axilares— tem essa fama
de não ser flor que se cheire, mas nem sempre foi assim.
O lascivo deus Pã, por exemplo, era representado como um
bode dançante e sedutor. Talvez porque os bodes gostem muito de sexo. É
justamente seu cheiro —e não sua barbicha— que atrai as fêmeas, com feromônios
que ativam seu sistema reprodutivo. Esse status de “sex symbol” logo fez com
que o bode fosse demonizado por religiões monoteístas.
O mesmo aconteceu com os cabelos no sovaco, que também
abrigam um verdadeiro carnaval hormonal para atrair o sexo oposto e costumavam
ser altamente erotizados, especialmente nas mulheres. Considerados íntimos e
sensuais, quase uma prévia da genitália feminina, os pelos axilares também
foram demonizados quando as mulheres entraram no mercado de trabalho,
desconcentrando seus colegas com seus Chewbaccas à
mostra.
Hoje não é exagero dizer que pelos femininos causam irca —um
nome específico para nojinho e repulsa—, especialmente em homens. Axilas
peludas seriam um indício de descuido, falta de higiene e/ou adesão ao
feminismo radical. O sovaco liso, impúbere, depilado às custas de muita
foliculite, pelos encravados e queimaduras, se apresenta como ideal de beleza,
bem-estar, saúde e praticidade.
Essa ideia não é exatamente nova. Em algumas civilizações
antigas, raspar os pelos do corpo também era visto como questão de higiene,
tanto para homens quanto para mulheres. Felizmente, não vivemos mais em um
mundo infestado por piolhos, tomamos banho regularmente e, pouco a pouco,
estamos desconstruindo esse mito.
Nada mais natural do que um tufo de pelos no sovaco. O que
deveria causar repulsa são as declarações misóginas e as mentiras cabeludas
proferidas pela família Bolsonaro.
Manuela Cantuária Roteirista e escritora, faz parte da equipe do canal Porta dos Fundos

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