O presidente Bolsonaro compartilhar vídeos de uma
manifestação com o objetivo de atacar um dos poderes é gravíssimo. Tentar
reduzir o peso do fato é uma forma de colaborar com o avanço cada vez mais
perigoso do atual governo contra as bases da democracia. Um vídeo é pior do que
o outro, mas as mensagens são inequívocas, a ideia é acuar o Congresso. Todo o
problema da execução do Orçamento foi criado pelo próprio governo quando fechou
um acordo inaplicável de que partes das despesas dos ministérios passariam pelo
Congresso. E esse acordo pode ser desfeito, mas em vez disso o presidente
prefere radicalizar.
A quarta-feira de cinzas já seria difícil no mercado
financeiro, portanto, a forte queda de ontem estava dentro do previsto. Como os
preços das ações caíram muito nos dias em que a bolsa brasileira ficou fechada,
haveria uma correção. O problema não é essa queda, que chegou a 7%. A economia
é ameaçada por uma pandemia, mas internamente o risco maior que o Brasil corre
é provocado pelo comportamento insano do presidente da República.
No ano passado, muitos de forma condescendente explicaram o
evento de o presidente compartilhar em rede social uma cena grotesca como fruto
da sua inexperiência no cargo. Ele não saberia, disseram algumas pessoas, o
peso do compartilhamento feito pelo próprio presidente. Mas a essa altura não
há mais autoengano possível. Ele sabe o que faz, quer acuar o Congresso, não
conhece os limites impostos pelo regime democrático ao exercício do poder do
Executivo, quer manipular a ideia de que está sendo impedido de governar pelos
políticos e pelo Supremo.
Todo mundo sabe que existe dentro do Palácio do Planalto uma
fábrica de fake news e de vídeos que ameaçam os que eles elegem como
“inimigos”. As peças que Bolsonaro compartilhou nasceram da sua rede,
controlada por filhos e asseclas. Todo mundo entendeu que ele traz os militares
para perto dele, inclusive os da ativa, como manobra dissuasória contra
qualquer reação ao seu desgoverno.
O que fica difícil de entender é o motivo de as Forças Armadas
se deixarem usar dessa maneira, inclusive diante de sinais que para os próprios
militares são perigosos, como a conivência com os motins de policiais. Quebra
de hierarquia sempre foi considerada o maior dos riscos para os comandantes em
qualquer época. Quem aceita motim na Polícia Militar, o que fará quando esse
comportamento chegar às suas tropas?
Os últimos acontecimentos não deixam dúvidas: Bolsonaro está
rompendo todos os limites institucionais. O presidente atacou uma jornalista de
forma torpe para tentar desmoralizar a imprensa como um todo. Com a eclosão dos
movimentos das polícias nos estados, os Bolsonaros deixaram claro, por suas
omissões e meias palavras, que acham natural que pessoas armadas descumpram a
Constituição. O ministro da Justiça, Sergio Moro, subestimou a gravidade do que
ocorria no Ceará. O general Augusto Heleno soltou imprecações contra o
Congresso. Isso foi transformado em vídeo apelativo que exalta o presidente,
usa o hino nacional, a imagem do Exército para estimular uma manifestação
contra o Congresso e os “inimigos” daquele que “quase morreu por nós”. Por fim,
Bolsonaro dispara essas peças através de uma rede mais difícil de fiscalizar.
Dias atrás eu conversava com um ministro do governo
Bolsonaro e ouvi a seguinte frase: “mas ele nunca falou de fechar o Congresso”.
E usava o argumento como quem diz: “viu como ele é um democrata?” Ora, ora. Os
tempos mudaram, a maneira como se fala isso é diferente da última vez que o
Congresso foi fechado por militares, em 1977. Agora, acua-se através das redes
sociais e de manifestações. Foram atos oficiais convocados pelo coronel Hugo
Cháves que encurralaram as instituições na Venezuela. Ele também lembrava a
todo o momento sua patente, apesar de já ter saído do Exército. O presidente
lembra a todo o momento que é um capitão. Ele saiu do Exército por mau
comportamento, há 32 anos. Contando o período de estudante, passou apenas 15
anos lá. Bolsonaro compensa sua frustração militar, de não ter feito uma
carreira da qual se orgulhar, alimentando o delírio de que comanda as Forças
Armadas em uma guerra. E quem é o inimigo? A imprensa, o Congresso, o Supremo.
A democracia.

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