Visto da perspectiva da opinião pública, o país continua
dividido em duas porções quase iguais: a dos que gostam do governo (34%) e a
dos que o abominam (36%). Neste fevereiro, a pesquisa mensal XP mostra que o
grupo simpático ao presidente tem tamanho e solidez razoáveis.
Nada afeta os apoiadores do ex-capitão. Nem os vagares da
recuperação econômica, nem os desacertos na educação, nem as ameaças ao meio
ambiente. Muito menos a sequência de agressões a jornalistas, autoridades
públicas e forças de oposição que Bolsonaro dispara, ao falar de improviso, às
portas do Palácio, para delícia de sua patuleia.
A esta altura, um presidente que jogasse o jogo democrático
estaria buscando ampliar seu círculo de apoiadores, acenando para aqueles que
declaradamente o reprovam. Ao contrário, quando fala e, sobretudo, quando cala,
Bolsonaro se compraz em despejar gasolina na fogueira acesa pelos radicais que,
em seu nome, soltam barbaridades nas redes sociais, sem serem desautorizados.
Também em seu nome, os filhos tuiteiros papaguearam o apoio do clã ao motim dos
PMs do Ceará e às milícias.
Em seu nome fala igualmente quem organiza —agora com seu
apoio declarado— a manifestação contra o Congresso e o Supremo marcada para 15
de março. Para tanto, usam imagens dos ministros militares que ocupam o
terceiro andar do Planalto, com exortações golpistas do tipo “Os generais
aguardam as ordens do povo”, “Fora Maia e Alcolumbre”, ou reproduzindo o sonoro
palavrão que o general Augusto Heleno dirigiu ao Legislativo.
Ainda em seu nome colhem-se assinaturas para o novo partido
do bolsonarismo, cujo símbolo, gravado em placa dourada feita de cartuchos de
bala, não deixa dúvidas sobre o tipo de disputa política preferido pelos seus
filiados.
O jogo do presidente é inequivocamente dúplice: ele aparenta
acatar as regras democráticas, mas estimula todos quantos gostariam de
aboli-las, em nome seja lá do que for.
As lideranças do Congresso, a cúpula do Judiciário e os
governadores vêm resistindo a cada provocação, dando testemunho da força das
instituições democráticas. Da mesma forma, a imprensa tem reagido às ofensas
aos seus profissionais e ameaças às respectivas empresas. Assim também a
miríade de entidades que formam a sociedade civil organizada.
Pode-se apostar que a soma de todas essas forças será mais
do que suficiente para neutralizar as pulsões autoritárias do bolsonarismo. O
que não se pode, definitivamente, é negar que existam, que se aninham no cerne
do poder e contam com o apoio de parcela ponderável da população.
*Maria Hermínia Tavares, professora titular aposentada de
ciência política da USP e pesquisadora do Cebrap.

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