O apoio a motins policiais e a manifestações de afronta ao
Congresso tem todos os ingredientes para radicalizar o presente e comprometer o
futuro deste governo. Uma adensada reação política à escalada autoritária
dificultaria a recomposição com a qual se busca redirecionar as bases deste
governo a partir das eleições municipais e, assim, esvaziar as alternativas ao
centro. Não há, contudo, indicações de que este virá a ser o desfecho da crise.
As primeiras reações ao vídeo compartilhado pelo presidente
de convocação a manifestações contra o Congresso indicavam que Jair Bolsonaro
havia cavado sua própria cova. Se as digitais bolsonaristas nos motins
policiais deixaram Ciro Gomes na condição de Rei Momo da reação, a convocação
bolsonarista adensou-a ao centro com o tuíte do ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso sobre os riscos em curso (“crise institucional de gravíssimas
consequências”) e o repúdio do decano do Supremo Tribunal Federal, Celso de
Mello (“se confirmado, indica um presidente que não está a altura do altíssimo
cargo que exerce”).
A amena reação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (“as
autoridades da República devem dar o exemplo de respeito às instituições e à
ordem constitucional”), porém, indicou o acordo a caminho para derrubar o veto.
O governo listaria seus projetos mais importantes e os parlamentares
interessados em serem co-patrocinadores dessas obras lhes destinariam recursos
de suas emendas. Não seria o primeiro acordo do gênero. O risco, desta vez, é
que uma iniciativa dessas pressupõe confiança mútua, mercadoria em falta num
governo em que ministros e presidente da República inauguram obras sem a
presença de parlamentares que as viabilizaram.
Ainda que a manifestação do dia 15 não leve multidões às
ruas, como aquelas que, no Carnaval, fizeram coro contra o presidente da
República, o momento é propício ao acordo. Se, de um lado, há indícios de que o
presidente ultrapassou os limites da responsabilidade de seu cargo, de outro os
parlamentares sabem da impopularidade representada pelos R$ 31 bilhões em
emendas parlamentares. O jogo ainda está muito longe daquele que emparedou a
ex-presidente Dilma Rousseff.
O Congresso teria uma oportunidade, com as reformas
administrativa e tributária, de fazer a lição de casa, mas são os governadores
que têm demonstrado mais ousadia. Depois de 20 deles darem a cara a bater na
carta inédita em que alertam contra ameaças à democracia, três governadores de
partidos diferentes (PSB, PT e PSDB) – Paulo Câmara (PE), Camilo Santana (CE),
Eduardo Leite (RS) – e uma vice governadora – Eliane Aquino (SE) – assinaram
juntos artigo em ‘O Globo’, no domingo de Carnaval, em que se dizem favoráveis
a mudanças no paradigma do serviço público, inspiradas em Cingapura e mais
pautadas pela excelência no atendimento à população do que no corporativismo.
O Congresso tende a manter em banho-maria representações
contra um senador da República (Flávio Bolsonaro) de longevas relações com
milícias ou contra um deputado (Eduardo Bolsonaro) que acusa um senador,
baleado por PMs, de ter sido unicamente vitimado pela falta de inteligência.
Os filhos são as balas de prata do esgarçamento
institucional. Até lá, tem muita munição a ser gasta. Um alvo é o ministro da
Economia. O desvario de Paulo Guedes contra os parasitas e as domésticas é visto
como sintoma de equívocos incontornáveis. Ao apostar tudo na queda de juros e
no arrocho fiscal vai levar o país a mais um ano de crescimento medíocre.
Some-se o impacto do coronavírus na balança comercial e a saída recorde de
dólares, o óleo de Guedes chega ao ponto de fritura.
Interessa muito mais ao Congresso substituir Guedes do que o
inquilino do Planalto. De um lado, o presidente recuou ao dizer que mensagens
de WhatsApp para “algumas dezenas de amigos” têm “cunho pessoal” e mandou sua
turma tirar o pé do dia 15. Do outro, o Congresso aperfeiçoou seus meios para
tirar proveito de mais esta crise. Vale-se da grande expertise adquirida no
tema nos últimos anos e que chega, com a ‘nova política’, ao seu ápice.
Se o bolsonarismo tem método, o Congresso também tem o seu.
No dialeto parlamentar, o samba da mangueira (“não tem futuro sem partilha”) se
traduz assim: o presidente da República terá futuro se e quando repartir o bom
e velho butim.
Messias de arma na mão
Das 27 unidades da Federação, quatro têm militares do Exército no comando da Secretaria de Segurança Pública. Dois são coronéis e os generais Camilo Campos, em São Paulo, e Mario Araújo, em Minas, todos da reserva. Reproduzem o arranjo na Secretaria de Segurança Pública do Ministério da Justiça, mais uma vez ocupada por um general (Guilherme Theophilo) e do Rio de Janeiro sob intervenção militar.
Das 27 unidades da Federação, quatro têm militares do Exército no comando da Secretaria de Segurança Pública. Dois são coronéis e os generais Camilo Campos, em São Paulo, e Mario Araújo, em Minas, todos da reserva. Reproduzem o arranjo na Secretaria de Segurança Pública do Ministério da Justiça, mais uma vez ocupada por um general (Guilherme Theophilo) e do Rio de Janeiro sob intervenção militar.
Candidato derrotado a deputado federal pelo PSL, o general
Araújo foi um dos artífices do acordo que propôs um aumento de 41% aos
policiais militares de Minas. O acordo é um dos fios desencapados da tensão que
mantém o Ceará há uma semana sob motim. Policiais de todo o Brasil hoje
reivindicam isonomia com os mineiros.
Ao patrocinar o aumento dos PMs, que colocou um ponto de
interrogação na já delicada solvência do governo de Minas, o general mineiro
seguiu a escola da tramitação do projeto de reestruturação da carreira militar.
Para ser aprovado com apoio da bancada da bala, com um custo fiscal de R$ 9
bilhões, o projeto deu carona a todas as demandas de PMs. A negociação
contaminou a nação.
Não é à toa que o general Araújo aparece ao lado do
vice-presidente Hamilton Mourão, do deputado federal Roberto Peternelli
(PSL-SP), e do ministro do GSI, Augusto Heleno, num dos panfletos convocatórios
da manifestação do dia 15: “Os generais aguardam as ordens do povo”. Peternelli
não autorizou o uso de sua foto mas não se ausentará da manifestação que
abrigará sua base eleitoral.
Generais não admitem que as Forças Armadas sejam
contaminadas por um governo que encheu o Palácio do Planalto de militares
quatro estrelas, ainda que ativa e reserva montem juntos quase todas as manhãs
na Cavalaria do Exército em Brasília. Sua disciplina não admite motins que
afrontam a Constituição, mas foi sob sua coabitação, em escalões militares e
civis, que se espraiou a ordem policial de que sempre cabe um gasto a mais
quando se tem uma arma na mão.

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