O carnaval terminou antes do esperado para Paulo Guedes.
Bolsonaro cobra do ministro o prometido crescimento econômico, não sem alguma
razão. As promessas foram muitas e faltaram alertas sobre a fragilidade do
País, o que vem desgastando o ministro.
Na campanha eleitoral, o candidato a formulador da política
econômica exibia desenvoltura no “palanque”. Guedes exagerou nas promessas,
rejeitando a ponderação usual de ministros da área econômica e descuidando do
rigor técnico necessário para a boa prática da profissão de economista. Um
exemplo foram as estimativas de receita com privatizações e venda de imóveis da
União, totalizando cada uma R$ 1 trilhão. Pelo seu discurso, vender imóveis,
privatizar, abrir a economia e eliminar os rombos fiscais eram tarefas fáceis;
não foram feitas antes devido apenas à inépcia ou a visões equivocadas dos
governos anteriores. Minimizou as dificuldades técnicas e políticas para
avançar em temas espinhosos que demandam a construção de consensos e capacidade
de enfrentamento de grupos organizados.
Não foi muito diferente no governo de transição, quando se
esperava a “descida do palanque”. Pouco se avançou no detalhamento do programa
da pasta. Vale citar que não se partia do zero, tendo em vista o importante
legado do governo Temer. Alguns temas anunciados geraram ruídos, mas nada
avançaram, como as medidas na área tributária e no Sistema S.
A grande notícia de 2019, a reforma da Previdência melhor
que a esperada, contribuindo para os cortes da taxa de juros pelo Banco
Central, foi inicialmente apresentada como propulsora de crescimento econômico
robusto, algo entre 3% e 3,5% em 2019.
Subestimou-se a gravidade da crise fiscal e a fragilidade
estrutural da economia. Foram criadas falsas expectativas.
Passada a aprovação da reformada Previdência na Câmara,
pouco se avançou na agenda econômica, diferentemente do prometido. Foi um
semestre praticamente perdido.
Bolsonaro não foi devidamente alertado sobre os desafios da
gestão fiscal, mesmo no curto prazo, e a necessidade de mais medidas fiscais
estruturantes. Em agosto último, diante das reclamações dos ministérios, o
presidente compreendeu que o dinheiro acabou e não havia “comida para dar para
o recruta”. Os alertas deveriam ter partido do ministro da Economia, e não de
terceiros.
Apesar das promessas exageradas ou até impossíveis, é
injusto colocar toda a responsabilidade pelo crescimento em Guedes. Não só
porque seu trabalho tem méritos, como o de evitar mudanças na regra do teto de
gastos, mas principalmente porque o chefe da pasta da Economia pode muito menos
do que se imagina. As mais importantes medidas econômicas dependem de
interlocução com o Congresso e de coordenação interna do governo, além do
diálogo com o Judiciário.
Como avançar com as privatizações, por exemplo, se o
presidente limita sobremaneira seu escopo, alguns ministros se posicionam
contra e a relação com o Congresso está precocemente desgastada, dificultando
até a privatização mais urgente, a da Eletrobras?
Temas ligados a educação, meio ambiente e arcabouço
jurídico, que assustam os investidores e freiam o crescimento, não dependem do
ministro. Falta agenda de governo e liderança do presidente.
Além disso, os ruídos causados por Bolsonaro e seu entorno
cobram um preço elevado: limitam a melhora da confiança de empresários e
investidores, prejudicam o avanço das reformas para a volta do crescimento e
desviam as instituições do seu papel. A cada energia gasta para discutir as
trapalhadas do governo e o acinte contra instituições, menos resta à discussão
séria e urgente de políticas públicas.
Bolsonaro já entendeu que há algo errado na economia. Não
compreende, porém, a importância de reformas estruturais e de sua liderança no
processo de aprovação. Improvável o presidente mudar seu estilo. Caberá, pois,
a Guedes, sem ilusionismos e com perseverança, reconquistar a confiança na
equipe econômica e manter a agenda econômica nos trilhos.
* Consultora e doutora em economia pela USP

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