Está no Gênesis: a incumbência de dar nome aos seres vivos
foi transmitida ao homem por ninguém menos que Deus. De lá para cá, a briga não
parou mais. Definir como se deve chamar cada uma das coisas deste mundo virou
uma disputa interminável. Cientistas concorrem para saber qual deles vai
designar a nova estrela ou o novo vírus. Locutores esportivos competem para dar
o melhor apelido ao jogador de futebol que brilha na temporada. Marqueteiros
duelam nas licitações para ganhar o direito de “criar” as marcas publicitárias
dos programas de governo (no nosso tempo, toda política pública tem nome de
sabonete, ou quase isso).
No meio dos turbilhões vernaculares para batizar isso e
aquilo, o repórter é apenas um a mais – mas esse um a mais não pode faltar. Não
se espera dele que saia por aí inventando os substantivos da língua corrente,
mas o repórter – como, de resto, toda a imprensa – tem o dever de chamar cada
coisa e cada personagem pelo nome devido. Se não fizer isso, vai desinformar a
sociedade. Se quiser mesmo noticiar os acontecimentos com clareza e com
objetividade, o jornalismo precisa saber nomeá-los.
Um exemplo? Está na mão. O que aconteceria se, em lugar da
palavra “motim”, os jornais, as rádios, as emissoras de TV e os sites
noticiosos na internet resolvessem usar a palavra “greve” para se referir ao
assalto contra a ordem pública que vem sendo perpetrado por policiais
cearenses? Aquilo não é uma “greve”. É um motim. Se os jornais começassem a
chamar aquele levante armado de “greve” – palavra que aparece na legislação
democrática como um direito do trabalhador – desorientariam os leitores,
ouvintes e telespectadores. Estes não entenderiam nada de nada e poderiam até
achar que os criminosos amotinados, com o rosto coberto por balaclavas,
atirando em pessoas desarmadas, não passam de assalariados explorados exercendo
seu direito de não trabalhar. Em resumo, se chamasse de “greve” o motim do
Ceará, a imprensa prestaria um desserviço à sociedade e faria propaganda, ainda
que involuntária, a favor dos amotinados.
Simples, não? Na verdade, não é tão simples assim. Quando se
trata de cobrir os atos do atual presidente da República, a tarefa de dar nome
às coisas se complica um pouco. Nesse ponto, temos tido dificuldades. Há dois
dias o chefe de governo distribuiu pessoalmente, por meio de seu telefone
celular, convocações para um ato público que pretende ameaçar os representantes
dos Poderes Legislativo e Judiciário.
A intimidação virulenta já começou. Está na rua. Num vídeo
divulgado pelos organizadores do ato, uma música dos Titãs, O Pulso, serve de
plataforma para a agressão das autoridades. Aproveitando-se da letra, que
arrola um inventário copioso de doenças, o vídeo exibe uma sucessão de fotografias
de deputados, senadores, governadores e ministros do Supremo, associando cada
rosto a uma enfermidade. Em termos rudimentares e imorais, a peça “xinga” as
autoridades de “doentes”. Em seguida, enuncia a mensagem de que para resolver
os problemas do Brasil é preciso extirpar do País todos os focos de
“moléstias”. Não há dúvida: o ato convocado pelo presidente da República é, sob
todos os ângulos, uma investida odiosa e golpista contra as instituições
democráticas e as pessoas que legitimamente as representam. A intenção dos
organizadores é desacreditar o Estado e pavimentar o caminho espúrio para que o
presidente avance na direção de uma ditadura.
O uso da canção dos Titãs foi indevido. Dois dos três
autores da música, Arnaldo Antunes e Tony Bellotto, repudiaram publicamente o
uso que a extrema direita fez dela (o terceiro autor, Marcelo Fromer, está
morto). O uso de símbolos militares também é indevido. Há oficiais protestando
contra a pregação de que as Forças Armadas devem tomar o poder dos políticos. Tudo
aí é indevido.
A convocação – indevida – desse ato público escancarou o
prenúncio de uma crise institucional. É claro que todo mundo tem o direito de
ir às ruas para gritar o que quiser. As pessoas têm o direito até de pedir por
uma ditadura militar. Birutice faz parte. Agora, quanto ao presidente da
República, que jurou solenemente respeitar, manter e cumprir a Constituição,
esse aí não tem o direito de se engajar a plenos pulmões no fanatismo golpista.
A lei obriga-o a defender a ordem constitucional. Se não observar a obrigação
que lhe cabe, o mandatário ficará exposto a um processo que lhe pode custar o
cargo.
O curioso é que o presidente, pronunciando seus impropérios
inconstitucionais, vai se fingindo de “normal”. Força os limites, dia após dia.
Quebra o decoro, faz apologia de torturadores, chama o povo para atacar o
Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal e age como um chefe de motim.
Ele se situa fora do campo democrático, atenta contra os símbolos mais caros da
democracia – isso é um fato – e setores da imprensa ainda parecem acreditar que
tudo está “normal”.
As redações precisam refletir. Dar o nome justo a cada coisa – e a cada agente público – vai se tornando urgente e indispensável.
As redações precisam refletir. Dar o nome justo a cada coisa – e a cada agente público – vai se tornando urgente e indispensável.
* Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP

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