O embate entre parlamentares e Executivo pela liberação de
emendas tornou-se um clássico da política nacional, tão tradicional quanto um
Fla x Flu ou um Corinthians e Palmeiras, que vem sendo reeditado há pelo menos
13 anos, quando uma resolução do Congresso regulamentou a matéria.
Desta vez, entretanto, num cenário de polarização política
que não dá sinais de retração, em meio à convocação de protestos contra o
Congresso e o Supremo Tribunal Federal, endossada pelo presidente Jair
Bolsonaro, a análise do veto presidencial a uma fatia vultosa das emendas
impositivas promete lances dramáticos.
Confiante de que o Senado atuará para preservar a medida,
Bolsonaro até ontem tinha suspendido o acordo costurado pelo ministro da Secretaria
de Governo, Luiz Eduardo Ramos. Entretanto, a eventual vitória do Planalto
nesta rodada será como marcar um gol contra, porque corre o risco de provocar
um maior esgarçamento das relações entre os dois Poderes, atrasando mais as
reformas econômicas.
Até aqui, surpreende que as jogadas que fizeram a rede
balançar para o governo tenham vindo de um jogador a quem no campo da política
caberia disputar a bola na retranca.
A bola rola em campo pelo destino dos R$ 30,8 bilhões,
relativos às emendas setoriais das comissões permanentes (R$ 800 milhões) e
àquelas definidas pelo relator da lei orçamentária, no valor de R$ 30,1
bilhões. Ainda estão assegurados aos deputados e senadores mais R$ 15,3 bilhões
– R$ 9,4 bilhões em emendas individuais e R$ 5,9 bilhões das bancadas
estaduais.
No meio do campeonato, quem combinou com os russos e
articulou uma fatia dos recursos para a sua pasta, sem se indispor com nenhum
dos lados, foi o ministro Tarcísio de Freitas, considerado um “quadro técnico”.
Do quinhão dos R$ 15,3 bilhões, ele já assegurou pelo menos
R$ 2,3 bilhões ao Ministério de Infraestrutura neste ano – verba 32% superior
ao destinado pelos parlamentares à infraestrutura no ano passado, quando a
pasta executou 97% das emendas – uma proeza.
Tarcísio pilota uma pasta prestigiada, que ganhou
credibilidade após exibir resultados concretos, como o recorde de leilões no
ano passado. Um desempenho, contudo, que não a livrou do déficit orçamentário
que assombra a Esplanada.
Foi para driblar esse revés que Tarcísio saiu em campo para
captar recursos das emendas junto aos parlamentares. O alvo foram os recursos
das bancadas estaduais.
Já no ano passado, Tarcísio buscou uma maior interação com
os parlamentares. A ideia era mostrar que era possível otimizar os recursos, mesmo
escassos. Um exemplo citado pela assessoria do ministro foi a solução dada para
a reivindicação da bancada de Goiás que reclamava da deterioração da malha
rodoviária federal.
O ministério não tinha recursos para a recuperação das
rodovias, mas a equipe do ministro identificou um desequilíbrio na alocação de
recursos. Havia R$ 40 milhões para uma obra no interior, que não tinha sequer
projeto. O destino desse dinheiro seria o contingenciamento.
Ao demonstrar com números e cronograma que esses recursos
seriam perdidos, o ministro conseguiu o aval da bancada para remanejá-los para
a manutenção das rodovias. A principal interlocutora era um quadro da oposição:
a deputada Flávia Morais (GO), do PDT, coordenadora da bancada goiana.
A articulação é considerada singular porque os parlamentares
resistem a destinar recursos para a reparação de rodovias porque o retorno
político é quase nulo. A visibilidade e o apelo eleitoral do anúncio da
duplicação de uma rodovia ou da ampliação de um aeroporto são muito maiores.
O mantra de Tarcísio junto aos parlamentares é para que
tentem ao máximo otimizar os recursos das emendas, aplicando-as em obras que já
têm projeto pronto, aprovado e com cronograma de execução.
Ao longo do ano, Tarcísio promoveu cafés da manhã com as
bancadas estaduais no ministério. Para facilitar as discussões, a pasta
organizou cartilhas com um cardápio das obras aptas a receberem emendas e com a
maior garantia de execução.
Um líder de bancada afirma que Tarcísio é tão articulado que
parlamentares deixam seu gabinete de sorriso largo mesmo depois de ouvir um
“não”. O ministro seria tão objetivo e direto ao explicar a inviabilidade de um
projeto, com argumentos tão cristalinos, que o deputado ou senador sairia
satisfeito apenas com a certeza de não estar sendo ludibriado.
Anunciado como ministro de perfil técnico e disciplina
militar (com diplomas da Academia Militar das Agulhas Negras e do Instituto
Militar de Engenharia), a desenvoltura política de Tarcísio era inesperada.
Um contrassenso, na verdade, porque o ministro é um quadro
forjado na política: egresso da carreira consultor legislativo da Câmara, onde
conviveu de perto com os parlamentares, ele depois serviu a dois governos antes
de ascender a ministro. Foi diretor-geral do Departamento Nacional de
Infraestrutura de Transportes (Dnit) no governo Dilma Rousseff e coordenador do
Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) na gestão Michel Temer.
Determinado a alçar o Brasil ao patamar de logística
competitiva, o ministro pretende contratar R$ 230 bilhões em investimentos a
partir das concessões até o fim de 2022. Há 44 leilões previstos para este ano,
22 de aeroportos.
Estamos no começo de março, e um primeiro leilão foi
realizado há 12 dias – a concessão de trecho da BR-101, ligando Florianópolis
ao sul de Santa Catarina, gerando investimentos de R$ 7 bilhões.
Em março, está prevista a renovação da malha ferroviária
paulista com uma cerimônia em São José dos Campos. O ministro quer dobrar a matriz
de ferrovias para que em 2025, 30% das cargas sejam transportadas por trens.
A pasta de Tarcísio parece se desenvolver em campo livre das
caneladas dos aliados ou dos adversários. Mas nem a infraestrutura, tão
estratégica para o país, estará imune ao porvir. A disposição dos congressistas
nos bastidores é para um jogo de faltas e cartões vermelhos se o Planalto não
transigir.

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