Não é exagero afirmar que o mundo ocidental tomou
conhecimento da China pelas histórias de Marco Polo. Ditadas ao romancista
Rusticiano de Pisa enquanto ambos estavam presos no Palazzo San Giorgio, em
Gênova, as aventuras do veneziano na corte do poderoso Kublai Khan se tornaram
um best-seller mesmo tendo sido publicadas mais de um século antes da invenção
da imprensa.
Após uma épica viagem de três anos e meio atravessando o
Mediterrâneo, o deserto da Pérsia e a Rota da Seda acompanhado do pai e do tio,
Marco Polo chegou a Xanadu (atual Shangdu, no norte da China), onde se
localizava o palácio de verão de Khan, por volta de 1275. Impressionado com a
inteligência do jovem, o imperador mongol nomeou-o seu conselheiro, e durante
17 anos Polo foi encarregado de inúmeras viagens pelo interior da China e
missões internacionais pelo extremo Oriente.
Embora existam controvérsias a respeito de possíveis
omissões e exageros nos relatos de Marco Polo, o exotismo dos lugares e hábitos
chineses, além da sua participação em guerras e batalhas, maravilhou os
ocidentais através dos séculos.
Não há registros de que Marco Polo tenha passado por Wuhan
ou pela província de Hubei em suas andanças – o mais próximo que ele esteve foi
Yangzhou, a cerca de 600 km do epicentro da doença causada pelo coronavírus,
que apavora o mundo centenas de anos depois.
Notícias de feitos heroicos e grandes tragédias fascinam a
humanidade desde os tempos das cavernas. Quase sempre, o medo e o inesperado
são os ingredientes principais para fisgar a atenção do público. Não
surpreende, portanto, a apreensão gerada pela ameaça de uma epidemia causada
por um vírus desconhecido que se alastra pelo globo matando milhares de pessoas
em poucos dias.
Daniel Kahneman, vencedor do prêmio Nobel de Economia de
2002 por suas pesquisas nos campos da psicologia e da economia comportamental,
demonstra que nossa percepção sobre os riscos que enfrentamos pode ser
distorcida em função de informações recorrentes ou eventos traumáticos que
marcam nossa memória. O autor batizou esse problema de viés de disponibilidade.
São exemplos desse fenômeno o maior medo que sentimos ao viajar de avião logo
após um grande acidente aéreo ou o fato de acreditarmos que quase todos os
políticos são corruptos simplesmente porque escândalos dessa natureza aparecem
com frequência nos telejornais.
No caso específico das epidemias e do temor que elas incutem
nas pessoas, Kahneman recorre às pesquisas dos juristas Cass Sunstein e Timur
Kuran para mostrar como estamos sujeitos a uma “cascata de disponibilidade”:
uma espiral em que um evento desperta a atenção da mídia, que por sua vez atrai
o interesse de um público maior e, assim, desencadeia um processo em que a
cobertura apela para a comoção e o sensacionalismo em busca de ibope e cliques
que acabam distorcendo nossa capacidade de aferir a real gravidade da situação
e o risco a que estamos efetivamente sujeitos.
Na última década foram várias as ameaças de epidemias ou
pandemias que dominaram o noticiário e as conversas cotidianas causadas por
vírus desconhecidos, elevando ao máximo o nosso grau de preocupação e alerta
quanto aos riscos de contaminação, das diversas ondas do H1N1, passando pelo
letal ebola até a “brasileira” zika (ver gráfico). No caso do coronavírus,
porém, seus efeitos têm ido muito além das horas e horas dedicadas ao assunto
na mídia e do fim dos estoques de máscaras e álcool gel nas farmácias. A reação
dos mercados financeiros na última semana diz muito sobre o mundo em que
vivemos.
Se no século XIII Marco Polo levou mais de três anos para ir
da Itália à China, o coronavírus precisou de poucas semanas para fazer o caminho
inverso e se espalhar pelo mundo todo, chegando inclusive ao Brasil. Além da
facilidade de transporte e do intenso intercâmbio de pessoas em nossa era
globalizada, as mudanças vivenciadas no gigante vermelho amplificam o potencial
de danos de uma doença surgida em seu território. Dada a importância do país em
termos não apenas de consumo, mas também pela sua centralidade nas cadeias
globais de produção, um espirro na China pode derrubar as bolsas ao redor do
mundo. Literalmente.
Em relação ao mercado acionário brasileiro, as expressivas
quedas da taxa Selic e o bom desempenho da bolsa no ano passado atraiu milhares
de investidores que por décadas estiveram mal acostumados com a segurança da
renda fixa. Mal preparados psicologicamente para suportar o sobe-e-desce das
cotações, esse novo contingente de investidores foge em manada ao menor sinal
de prejuízo, amplificando as quedas por aqui.
O grau de disseminação e de letalidade do coronavírus ainda
é incerto e não nos permite afirmar se o pânico da população e dos mercados se
justifica. Em todo o caso, vale o conselho do prêmio Nobel Daniel Kahneman:
racional ou não, o medo não pode ser ignorado pelas autoridades – do presidente
da República ao ministro da Saúde, passando pela Economia e pelo Banco Central.
*Bruno Carazza é mestre em economia, doutor em direito e
autor de “Dinheiro, Eleições e Poder: as engrenagens do sistema político
brasileiro”.

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