“É a mais sombria das ironias”, escreveu o articulista do
Guardian Roy Greenslade: “a maior história da imprensa em toda uma geração está
matando a própria indústria que existe para noticiá-la.” A alusão às pressões
financeiras que estão asfixiando veículos de imprensa em todo o mundo é ainda
mais sombria quando se considera o risco de vida literal para os jornalistas
sob regimes autoritários.
Em declaração assinada pelos governos do Reino Unido, EUA,
Alemanha e Holanda, entre outros, a Coalizão para a Liberdade de Imprensa
alerta contra “os esforços de alguns Estados para usar a crise a fim de impor
restrições indevidas a uma mídia livre e independente”. Segundo o Reuters
Institute da Universidade de Oxford, os ataques podem ser divididos em cinco
áreas: abuso da legislação de emergência, repressão de reportagens “não
patrióticas”, restrições de viagens e vistos de imprensa, abuso das leis contra
a desinformação e ataques a denunciantes.
A Hungria aprovou um decreto suspendendo a democracia
parlamentar e autorizando a prisão por cinco anos para quem disseminar
“informações falsas”. Uma sanção similar foi aprovada na Rússia para quem
questionar os dados oficiais do governo. Iraque e Egito suspenderam licenças de
trabalho para alguns jornalistas internacionais. Na Índia, onde as manobras do
premiê Narendra Modi têm tornado a imprensa cada vez mais dependente de verbas
oficiais, os veículos são abertamente coagidos a publicar “histórias positivas
e inspiradoras” sobre os esforços do governo.
Mas é no país de origem da pandemia, a China - que ocupa a
177.ª posição entre 180 países no ranking de liberdade de imprensa do
Repórteres Sem Fronteiras -, que o aparato de repressão, sob o disfarce da “guerra
do povo” contra o vírus, se mostra mais brutal. Ainda em dezembro, médicos como
o dr. Li Wenliang foram detidos e silenciados por disseminar “rumores” sobre um
novo coronavírus. Um estudo da Universidade de Southampton sugere que as mortes
na China poderiam ter sido reduzidas em 86% se a população tivesse sido
devidamente informada.
Desde que a morte do dr. Li pela covid-19, em fevereiro,
desencadeou uma onda de protestos nas redes sociais chinesas, os casos de
“reprimendas educacionais”, detenções, multas e confissões forçadas escalaram.
Até março, a Chinese Human Rights Defenders havia documentado 897 punições
deste tipo a usuários da internet - um número assumidamente incompleto. Pelo
menos quatro figuras proeminentes nas redes sociais foram detidas e
desapareceram sob o pretexto de “quarentena compulsória”. Enquanto isso, a
máquina de propaganda comunista promove uma campanha global massiva destinada,
segundo os pesquisadores de segurança digital do Recorded Future, a mover a
narrativa “da China como fonte da pandemia para a China líder global da
resposta”.
Ao mesmo tempo, no Ocidente, um número crescente de veículos
tem anunciado demissões, licenças e outras medidas de contenção de custos. Nos
EUA, ainda que, segundo o Pew Research, 54% dos adultos considerem que a mídia
impressa e televisiva esteja fazendo “um ótimo trabalho”, 50% dos jornais
membros da associação America’s Newspaper projetam quedas de receita de 30% ou
mais no segundo trimestre, obrigando-os a contrair dívidas e reduzir agressivamente
os gastos com páginas impressas e folhas de pagamento. Esses cortes se seguem a
uma década em que as dispensas nas redações chegaram a quase 50%.
Muitos temem que a pandemia seja o golpe de misericórdia nos
jornais, encerrando quase quatro séculos de história. A verdade é que ela está
acelerando traumaticamente a transição do jornalismo escrito do papel para as
telas. Muitos perecerão na travessia, mas a fome por notícias confiáveis
despertada pelo vírus sugere que uma nova história está apenas começando. Hoje,
mais do que nunca, as pessoas se dão conta de que um debate aberto embasado
pela apuração profissional pode fazer a diferença entre a vida e a morte, e de
que, nas palavras do dr. Li, “uma sociedade saudável não pode ter apenas uma
voz”.

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