A nostalgia é o insondável sentimento da recusa ou negação
do tempo, do espaço ou de ambos. É o sempre querer estar alhures, desejar
retroagir. A república brasileira do século XXI é uma sentença esmaecida da
nossa ancestralidade. Depois de 5 séculos, ao menos 5 cruéis e pesadas heranças
nos agrilhoam ao passado colonial: a inexperiência de administradores, a
descontinuidade de projetos, pandemias, a autonomia das capitanias em relação
ao poder central, além de um desonroso e obscuro sebastianismo.
Após o ‘achamento’, em 1500, o Brasil amargou 30 anos de
completo abandono pela coroa portuguesa. A ambição e entusiasmos
concentravam-se nas Índias de Vasco da Gama. Durante 3 décadas de descaso, o
país esteve entregue a saqueadores, mercenários, náufragos, traficantes,
contrabandistas de pau-brasil e malfeitores de toda ordem. São os nossos
primórdios. Terra de ninguém e reles ilha do desdém. A mais pesada das heranças
lusitanas, o acaso, mais uma vez, nos pariu.
A embarcação francesa “Peregrina” foi, casualmente, pilhada
em um entreposto comercial com toneladas de pau brasil, peles de animais,
algodão e aves silvestres. Féria de meses de pirataria francesa em domínios
portugueses, o Brasil. Rapinagem e tratados diplomáticos desprezados pela
França, coagiram Portugal a colonizar o Brasil para abortar o dreno das
riquezas. “Era o prenúncio de tempos sombrios”, pontuou o escritor Eduardo
Bueno em “Capitães do Brasil”.
Em meio ao surto de uma pandemia dizimadora – a peste negra
que matou D. Manuel, o Venturoso – inaugurou-se o arrendamento brasileiro, a
leste de Tordesilhas e, com ele, iniciou-se nossa desventura. Foram rabiscadas
15 donatarias ou capitanias. Os aquinhoados – começo do compadrio e pioneiros
do nepotismo – foram escolhidos em conchavos e lobbies junto aos amigos do rei,
D. João III. A nobreza, infantes, condes e duques desdenharam a cortesia
ultramarina. Aqui desembarcaram, majoritariamente, aqueles de mais baixa
patente. Das 15 extensas faixas de terra, 12 foram dadas a capitães e parentes.
Alguns jamais pisaram em suas posses.
O colapso do modelo expropriatório não tardou. O fracasso
das capitanias foi outro pesado legado. Os capitães não tinham aptidão ou
vocação para administrar. Eram íntimos das armas, do conflito, da beligerância
e da morte. Administrativamente eram inexperientes, despreparados,
desinteressados e sem projetos para desenvolver as propriedades. À exceção de
duas capitanias, os capitães naufragaram em terra firme. Uma das heranças mais
perversas – as sesmarias – nos amaldiçoaram para a eternidade. É o DNA do
modelo latifundiário, da escravidão, monocultura e estratificação social.
Os capitães tinham poderes absolutistas em suas posses.
Administrativamente podiam explorar as riquezas, doar as sesmarias e cobrar
impostos; politicamente faziam as próprias leis com poder de escravizar;
judicialmente tinham o poder de prender, arrebentar e matar. As leis eram
circunscritas aos limites geográficos das capitanias. Cada estado forjava sua
lei. A Coroa – ávida pelos 10% dos capitães e o quinto de 20% das riquezas
minerais – desprezava o barril de pólvora na iminência de explodir em razão dos
conflitos internos. A alternativa ao descalabro foi o centralismo da
administração em 1548, com o 1 governo-geral.
A anarquia colonizadora ocorreu em meio ao sebastianismo ou
mito sebástico. Um fenômeno de tola crendice popular envolvendo o falecimento
de rei português, D. Sebastião, “O Desejado”. Morto em uma batalha na África e
sem localização do corpo, disseminou-se um movimento messiânico de salvação
através do renascimento do rei. A espera do ressurgimento do mito salvador se
espalharia pelo mundo.
Jair Bolsonaro é o atual capitão da donataria. É um
peregrino que gosta de predicações golpistas, sabota a ciência e tem desvarios
monárquicos absolutistas. É a síntese do Brasil colônia: atrasado, belicoso,
primitivo, desprezado pelo mundo e condenado a ruína. A estreiteza para gerir o
Brasil é notória e antecede a pandemia. Não apresentou projetos ao país e troça
com o diversionismo incensado por abjetas criaturas do rei e o gabinete do
ódio. O esvaziamento político, derivado da inépcia, levou o capitão ao
isolamento, como no período pré-colonial.
A federação vem sendo redesenhada por travas do Supremo
Tribunal Federal. Os estados – como no Brasil colônia – tocam autonomamente a
proteção sanitária a despeito do charlatanismo presidencial. As comichões autocráticas,
típicas dos capitães de outrora, são democraticamente rechaçadas pelas
instituições e o isolamento vai se transformando em confinamento. O débil
sebastianismo também é indesejado e será exorcizado. Tampouco conseguirá
restaurar os poderes absolutistas dos seus antepassados capitães.

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