O presidente recusa toda a evidência empírica e aceita, sem
análise crítica, as diferenças identitárias que são próprias da natureza
humana. Venceu as eleições ajudado por uma mensagem simples e forte:
"vamos mudar tudo o que está aí". Com ela e alguma ajuda da
tecnologia, somada a um acidente aleatório (uma facada) que, com o apoio da
sociedade, o poupou dos corrosivos debates em que teria de explicar como
realizaria a mudança, venceu o "establishment" político sem ter de
enfrentá-lo.
A partir da posse, com a pior Casa
Civil de toda a história da República, pôs os pés pelas mãos, o que
resultou em perigosas dúvidas sobre a sua crença no Estado democrático de
Direito, imposto pela Constituição de 1988.
Mesmo não aceitando nenhuma das evidências empíricas,
Bolsonaro não pode e não deve ignorar que a confiança que recebeu da sociedade
que o elegeu parece estar se dissipando. Ainda que veja nelas um instrumento
conspiratório, deveria, para seu próprio bem e do Brasil, levá-las em conta.
Por exemplo, com todos os seus problemas, a pesquisa mensal Ipespe (divulgada
pela XP Investimentos), feita por telefone com uma amostra aleatória sobre um
"frame" muito próximo ao perfil da sociedade brasileira, é um aceitável
indicador da evolução dos seus sentimentos.
Ela revela, depois do mês de maio de 2019, uma forte
estabilidade das respostas "regular" e "não sabe", em torno
de 30%, o que talvez nos permita avaliar a evolução do apoio a
Bolsonaro, comparando no tempo as respostas ótimo/bom com as ruim/péssimo.
No mês da posse, janeiro de 2019, tínhamos ótimo/bom = 40% e
ruim/péssimo = 20%, ou seja: 70% (40%/60%) ótimo/bom, contra 30% (20%/60%)
ruim/péssimo, muito próximo do resultado eleitoral das urnas. Como evoluiu essa
relação? A tabela abaixo mostra:
Avaliação de Bolsonaro
Para salvar o que resta de seu governo e ajudar o Brasil a
superar a Covid-19, Bolsonaro deveria usar a receita política universal.
Aproximar-se do Congresso e construir um programa comum com uma maioria estável
e administrar o país partilhando o poder com ela. Talvez seja apenas desejo,
mas creio que há alguma esperança com a Casa Civil entregue, agora, a um
comprovado administrador, o general Braga Netto.
Antonio Delfim Netto
Economista, ex-ministro da Fazenda (1967-1974). É autor de
“O Problema do Café no Brasil”.


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