Os filósofos sempre interpretaram o mundo. Agora que ele
está revirado e quase todos recolhidos na quarentena, a tendência é uma grande
produção de cenários sobre o mundo de amanhã, o pós-coronavírus.
Alguns queimaram a largada considerando a pandemia um
exagero da imprensa, uma fantasia tirânica. Temiam, à esquerda, uma sucessão de
ditaduras e, no outro polo, temiam o desgaste de seus populistas no poder.
Uma ditadura oportunista acabou se instalando apenas na Hungria.
Noutros países segue o debate democrático sobre controle da pandemia,
liberdades individuais e privacidade.
Em muitos casos, a sensação que tenho é de que as previsões
nada mais são do que nossas expectativas projetadas no futuro. Talvez essa
sensação pessoal venha das inúmeras vezes na história em que li a frase: o
capitalismo está em crise terminal e no seu lugar virá um regime social mais
fraterno e humano. Como disse o intelectual sul-coreano Byung Chul Han, o vírus
não é revolucionário. As mudanças certamente vão depender das pessoas.
De fato, as esperanças de transformação se apoiavam na
classe operária, houve quem as deslocasse para o lúmpen proletariado. O vírus
seria o novo agente transformador?
De fato, a crise em que o capitalismo se move no momento é a
mais grave de sua história, muito mais ampla e profunda que a de 1929. No
entanto, alguns de seus movimentos clássicos se repetem: transformar-se e
aprofundar-se com a crise.
A passagem para a economia virtual foi precipitada. As
grandes empresas telefônicas, provedoras de internet, estão em alta. A Amazon
contratou centenas de novos empregados. O comércio eletrônico ampliou-se,
possivelmente liquidando milhares de lojas físicas que já estavam em
decadência. Os patrões descobriram o home office e suas vantagens econômicas,
pois sem grande perda de produtividade economizam na montagem de pesadas
estruturas. É preciso ver humildemente o que vai sair daí, reconhecer também
que não prevíamos a extensão da catástrofe.
O papel do Estado se acentua com a clara necessidade de
sistemas de saúde universais e frentes de trabalho estimuladas pelos recursos
públicos. Mas daí a afirmar que todo o processo de liberalização da economia
foi um erro, é difícil. Como enfrentaríamos a pandemia sem o nível de comunicações
que existe hoje, sem os milhões de smartphones espalhados pelo País? As velhas
telefônicas estatais entrariam em colapso.
Da mesma forma existe uma onda real de solidariedade que nos
enche de orgulho. Mas o discurso de que as pessoas serão transformadas e
ficarão mais humanas e fraternais por causa do vírus lembra um pouco aquela
figura do “novo homem” das utopias passadas.
O homem tal como descreveu Shakespeare e sempre existiu, com
sua coragem, suas fraquezas e misérias, continua de pé. Como explicar, ao lado
de tantas bondades, que exista gente roubando testes de coronavírus, insultando
profissionais de saúde porque entram com suas roupas de trabalho no transporte
público? E a quantidade de aplicativos falsos para lesar os que necessitam da
ajuda de R$ 600 do governo?
Tudo isso não é para negar as transformações que virão.
Apenas para abordá-las de forma mais modesta, como já faziam alguns
intelectuais com a realidade imediatamente anterior ao vírus.
Edgard Morin, que já esteve no Basil nos anos 60, fazendo
conferências, é um caso de evolução com humildade diante da complexa realidade.
Na Inglaterra, Ziauddin Sardar desenvolve os estudos de pós-normalidade, uma
época em que, segundo ele, muito pouca coisa faz sentido, pois as velhas
ortodoxias morreram e as novas ainda não nasceram. Se os tempos anteriores ao
vírus nos pareciam normais e já eram, para muitos teóricos, pós-normais, o que
diríamos agora, depois da passagem do corona?
Verdade que alguns políticos previram. Barack Obama fez um
discurso sobre o perigo de uma gripe do tipo espanhola de 1918 e disse que era
preciso montar uma estrutura global para fazer frente a ela. Mas disse isso num
país onde a ciência, o saber acadêmico, a própria imprensa já entravam em
declínio sob o impacto do populismo de direita.
Os laços horizontais de solidariedade diante de políticos
que se apagam na crise, o intercâmbio planetário de cientistas em busca de
saídas para a crise, a entrega cotidiana dos profissionais de saúde, tudo isso
é legado benéfico para os tempos que virão. Mas o gatilho de novas crises não
será completamente desarmado.
Antes da chegada do vírus já vivíamos uma sucessão de
eventos extremos potencializados pelo aquecimento global, negado enfaticamente
pelos mesmos que negam hoje a dimensão da tragédia. Antes de entrarmos neste
século perigoso, em que um vírus pode ser um acidente de laboratório, pouco
adiantava lembrar que estacionamos no século 19 com nosso déficit em saneamento
básico. Quem sabe agora, com dinheiro público e força de trabalho, não damos
pelo menos esse modesto passo?
Os grandes lances do futuro são imprevisíveis. Mas não há
desculpa para protelar os passos óbvios do presente. Em nome não somente das
pessoas, mas do próprio sistema de saúde, que hoje tanto agradecemos.
Artigo publicado no Estadão em 17/04/2020

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