Num momento em que todos reprisam, o governo é pródigo em
lançar novelas inéditas. Mal acabou a novela Mandetta, entrou no ar a Sergio
Moro, e começaram as filmagens da Paulo Guedes. O que está acontecendo na
cabeça do presidente Bolsonaro? Ela foi sacudida pelo impacto do coronavírus.
Muitas mudanças estão sendo determinadas, no fundo, pela
política escolhida por Bolsonaro para enfrentar este que é o maior
acontecimento trágico no mundo moderno. Onde governos conservadores ou
progressistas triunfaram, como é o caso da Austrália e da Nova Zelândia,
Bolsonaro afundou.
Desde o princípio, tenho apontado a causa. Bolsonaro aderiu
à camada de gordura que cerca o vírus e seus fluidos ideológicos e o
transformou num tema da guerra cultural. Exatamente o oposto do que fizeram
Scott Morrison, na Austrália, e Jacinda Ardern, na Nova Zelândia:
despolitizaram o vírus.
Ainda esta semana, o chanceler Ernesto Araújo escreveu um
artigo contra o que chama de comunavírus. Ele ficou impressionado com um livro
do pensador de esquerda Slavoj Zizek que previa enfim a chegada do comunismo.
Depois de sonhar com a classe operária ou mesmo o lúmpen proletariado, alguns
teóricos de esquerda concentram suas esperanças no vírus como agente
transformador. E os bolsonaristas acreditam.
Desde o princípio, Bolsonaro viu a chegada do vírus como
algo que ameaçava seu governo. A única forma de neutralizar sua importância era
adotar uma tese que permitisse neutralizar os impactos econômicos. Esta tese
foi a de imunização de rebanho: a maioria vai ser contaminada, é melhor que
isso aconteça logo para que nos livremos do vírus.
Bolsonaro jamais considerou seriamente o fato de que, se
muitos se contaminarem ao mesmo tempo, o sistema de saúde entraria em colapso,
muitas pessoas morreriam na porta dos hospitais ou em casa. Um cenário que, de
certa forma, se desenhou na Itália e mais tarde, de forma grotesca, em
Guayaquil.
Foi por aí que caiu Mandetta. E indiretamente Moro.
Bolsonaro sempre pensou em concentrar poderes. Mas a impossibilidade de
determinar sozinho uma política contra o coronavírus condensou seu drama. Os governadores
e prefeitos tiveram um papel decisivo. O Congresso os apoiou, o STF chancelou
essa autonomia local.
A relação com Moro já sofria um desgaste. Mas Bolsonaro, na
sua solidão, reclamou da ausência do ministro em sua cruzada contra o
isolamento social. Moro, segundo alguns, não só era favorável à política de
Mandetta, como pensou em decretar multas para quem rompesse com o isolamento
social. O que, aliás, acontece em muitos países da Europa.
Sem o Congresso, STF, ministro da Saúde e da Justiça, Bolsonaro
deu um passo decisivo participando de manifestação antidemocrática diante do QG
do Exército. Isso resultou num inquérito que acabou se entrelaçando com outro:
o das fake news. Os investigados são os mesmos: apoiadores do presidente e,
possivelmente, até familiares de Bolsonaro.
Moro teve uma chance de sair depois daquela manifestação.
Possivelmente estava incomodado com a posição temerária de Bolsonaro sobre o
coronavírus. Mas agora estava diante de uma posição temerária contra a
democracia.
Moro não se pronunciou. Num determinado momento de sua
trajetória, a mulher de Moro escreveu numa rede social que ele e Bolsonaro eram
a mesma coisa.
Ele pode ter sido salvo agora pela maneira como cai. A
tentativa de interferir na autonomia da Polícia Federal é algo que não encontra
apenas resistência na corporação, mas em muitos setores conscientes da
sociedade. É inconstitucional.
Nesse sentido, Moro cai de pé. Mas, para que sua trajetória
política tenha viabilidade, será necessário se distinguir de Bolsonaro, algo
que não fez quando esteve no governo. O tom de seu discurso de saída é um
indício de que compreendeu isto. Pelo menos se distanciou da visão atrasada de
submeter o trabalho da PF aos desígnios de um presidente. O que é no fundo um
crime de responsabilidade.
Mas Moro indicou claramente que Bolsonaro teme o inquérito
no Supremo. Resta agora ao STF assumir seu papel institucional e não amarelar
diante da pressão de Bolsonaro.
É um governo que se aproxima de uma situação limite, como
foi o caso de Collor e Dilma. Mas num contexto de pandemia que jogou o planeta
na maior crise econômica e social da história contemporânea. Alto risco de
tragédia.
Artigo publicado no jornal O Globo em 27/04/2020

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