Não cultivo ídolos nem heróis. A razão é simples: a essência
imperfeita da natureza humana. Ambos são abstrações. Atribuem a Voltaire a
frase: “ninguém é herói para seu criado de quarto”. A intimidade fulmina
ídolos. A esse respeito, a crueza genial de Nelson Rodrigues, dizia que,
dependendo das “intimidades”, “as pessoas, com vergonha, sequer se
cumprimentariam”.
Entretanto, no campo político, tenho especial admiração por
três grandes líderes: Gandhi, Nelson Mandela e Winston Churchill.
Exatamente no campo político, o culto à personalidade leva à
adoração de verdadeiros monstros, construídos pela arma manipuladora da
propaganda, ou pela síntese insuperável que explica êxito de o “Príncipe” de
Maquiavel: “virtú et fortuna”.
Os povos precisam de heróis, ídolos e símbolos a quem
reverenciar com a força unificadora das narrativas religiosas, míticas e
políticas.
Nós brasileiros, não fugimos à regra e não faltam exemplos
de ídolos consistentes ou com os pés-de-barro, heróis verdadeiros ou
fabricados, em todos os campos da vida social.
Na política brasileira, não faltam heróis e vilões. Mas foi
no campo minado da antipolítica que surgiu um herói nacional: o Juiz Sérgio
Moro que atendeu ao clamor estrondoso da sociedade e ao natural desejo de
punição a um esquema de corrupção em proporções tais que afetou a economia na
escala medida pelo bilhão de dólares. Mais importante: feriu mortalmente a
cultura da impunidade ao colocar na cadeia os mais poderosos representantes do
poder econômico e do poder político.
Não, por acaso, a operação denominada Lava-Jato, lavou a
alma dos brasileiros a despeito do pecado do orgulho de alguns jovens
promotores e do estranho amor ao Estado de Direito dos hackers da Intercept.
O novo herói nacional, Sergio Moro, não se afastou do estilo
sóbrio, da consistência jurídica das sentenças, demonstrando sempre uma
inabalável convicção interior e apego à lei.
A escolha de Moro estava legitimada pela confiança delegada
por 58 milhões de eleitores ao Presidente e pelos méritos do magistrado no
combate à corrupção. Mal sabia Moro que trabalhar com o Presidente seria um
martírio.
Na parte final do meu artigo, “a síndrome de Caim” escrevi:
“Ministros o recado está dado. Cuidado com avaliação das pesquisas de opinião:
o teto é a mediocridade turbinada por uma personalidade a merecer devida
atenção dos especialistas em patologias comportamentais”.
O ministro ascendeu por mérito e a queda, com dignidade,
engrandece Sérgio Moro. Fica a questão: por que rolou a cabeça de Valeixo?
Gustavo Krause é ex-ministro da Fazenda

Nenhum comentário:
Postar um comentário