Sem o paladino Sérgio Moro e em negociação avançada com os
velhacos de sempre, gente do naipe de Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson,
o presidente Jair Bolsonaro perdeu sua força-motriz: o combate à corrupção e à
“velha política” do toma-lá-dá-cá. Resta a ele insistir na mentira, instrumento
sistêmico que adotou para governar.
O pronunciamento anti-Moro que fez cercado por ministros -
alguns deles sem conseguir esconder o desconforto – é prova cabal disso.
Bolsonaro falou demais, cuspiu besteiras, não explicou o que precisava
explicar. E mentiu. Insistentemente.
Disse, sem lastro algum, que no início do governo tinha sido
acusado de dificultar a Operação Lava-Jato. Afirmou estar lutando contra o
establishment enquanto bate bola com o baixo clero do qual já fez parte. Que
jamais deu carta branca a Moro – há entrevistas gravadas em voz e vídeo com a
afirmação –, e que nunca se meteu em qualquer investigação. De novo, mentira
pura.
Além de reclamar que não conseguia interagir com o diretor
da Polícia Federal, confessou o pedido feito para que a PF interrogasse um
ex-militar de Mossoró, dentro de um processo envolvendo seu filho Renan, que
ele chama de 04. Intervenção na veia.
Embora tenha feito cara de indignado ao dizer que Moro o
chamara de mentiroso, para Bolsonaro mentir é prática, método. Portanto, nem
mesmo é novidade.
Já disse que a “Amazônia é úmida e não pega fogo”, que ONGs
e Leonardo DiCaprio estavam por trás das queimadas, que “não existe fome no
Brasil”. Que estava em Brasília quando foi multado por pescar na Estação
Ecológica de Tamoios, em Angra, mesmo com fotos provando o contrário.
Adora bater no peito para dizer que não há denúncias de
corrupção em seu governo, mas acoberta os ministros do Turismo e do Meio
Ambiente, ambos enrolados com a Justiça. E, claro, o filho 01, suspeito por
rachadinhas e envolvimento com milicianos.
Mente tanto que é o primeiro presidente na história a mentir
contra ele próprio ao afirmar que as eleições que o levaram ao poder foram
fraudadas. Diz que teria provas, nunca apresentadas, apontando ter sido
vencedor no primeiro turno.
Listar mentiras de Bolsonaro é quase tão infinito quanto
contar grãos de areia. Levantamento do aosfatos.org aponta 926 declarações falsas ou distorcidas
do presidente em 479 dias. Quase duas por dia.
Diante da pandemia, se negou a apresentar os resultados de
seus testes que, disse ele, teriam sido negativos, e multiplicou seu estoque de
mentiras.
Em rede de rádio e TV tratou o novo coronavírus como
gripezinha ou resfriadinho. Antes, afirmara à claque diante ao Palácio da
Alvorada que a Covid-19, hoje com quase 4 mil mortos no Brasil, seria menos
grave do que a H1N1, que, no pior ano, 2009, registrou 820 óbitos. Apropriou-se
da concessão dos R$ 600 para informais, quando tinha proposto apenas R$ 200,
projeto reformado pela Câmara dos Deputados. Defendeu cegamente a controversa
cloroquina como medicamento salvador, e garantiu que as mortes da Itália eram
“invenção da mídia”.
Na sexta-feira, 24, o presidente falou por quase 50 minutos.
Nem no improviso nem na leitura conseguiu explicar a urgência de trocar o
diretor da Polícia Federal em meio à gravidade da pandemia. Não poderá,
portanto, reclamar das análises de que sua pretensão é proteger seu clã de
investigações em curso.
Criticou Moro por querer zelar por sua biografia, enquanto
ele, Bolsonaro, teria “um Brasil a zelar”. Bela frase de efeito se o presidente
enxergasse além de seu umbigo e de suas pretensões eleitorais. Se demonstrasse
alguma preocupação pela enfermidade que devasta o país, se fosse capaz de fazer
um único gesto aos profissionais de saúde, jamais citados por ele. Se falasse
algumas poucas palavras de apoio aos familiares de doentes e de mortos.
A virulência da crise deflagrada com a saída de Moro está
longe de chegar ao pico e tem chances remotíssimas de reduzir a curva de
contágio. Ao contrário. Para manter-se de pé, o presidente decidiu contaminar
ainda mais o seu governo e dar maior relevância à mentira. Expurgado o ex-juiz,
pedra no sapato da bandidagem oficial, Bolsonaro repetirá a galhofa de que não
negocia nada enquanto reparte cargos entre a banda podre da política.
Não bastasse a tendência de recrudescimento da Covid-19,
tudo indica que também na política o pior ainda está por vir.
Mary Zaidan é jornalista

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