Ao endossar ato a favor do golpe militar, Jair Bolsonaro
ofuscou o debate sobre a resposta do Brasil à pandemia de covid-19. Ao atacar a
"velha política", o presidente se antecipou a críticas justamente no
momento em que retoma o toma-lá-dá-cá com o Congresso. Alguns minutos em cima
de uma caçamba em frente ao quartel-general do Exército no domingo, 19,
(durante os quais tossiu sem conseguir disfarçar) bastaram para o chefe do
Executivo determinar a pauta da semana driblando os temas mais caros ao país e
mais sensíveis à sua imagem. Essa é a análise de deputados do centrão, da
direita e da esquerda ouvidos pela piauí nesta segunda-feira,
20. Enquanto se discute publicamente se os generais vão ajudar Bolsonaro a dar
um golpe militar ou se a Câmara vai abrir um processo de impeachment, a portas
fechadas, os atores de sempre, governo e centrão, negociam o de sempre, cargos
e verbas.
A nova leva de ataques de Bolsonaro e sua tropa ao
Congresso, ao Supremo Tribunal Federal e ao "sistema" só veio depois
de o presidente se certificar da disposição de parte dos líderes do centrão
para conversar, segundo políticos a par da aproximação. Na linha de frente
estão o líder do Progressistas (ex-PP) na Câmara, Arthur Lira, e o presidente
do partido, senador Ciro Nogueira. Outros deputados, como Marcos Pereira,
presidente do Republicanos (ex-PRB, um braço da Igreja Universal), que esteve
com Bolsonaro pessoalmente em diversas ocasiões recentes, e Wellington Roberto,
do PL, também são citados.
Da parte do Planalto, além do presidente, ministros generais
compõem o time, com Braga Netto (Casa Civil) à frente e Luiz Eduardo Ramos
(Secretaria de Governo) a seu lado. A participação desses militares nas
negociações com a "velha política" é encarada por deputados como
demonstração de que, apesar da controvérsia e da apreensão causadas pela
participação de Bolsonaro na manifestação a favor de uma intervenção, o
"sistema" está operante como sempre e com o respaldo da cúpula das
Forças Armadas.
Segundo essa análise, o barulho causado pelo temor de um
golpe militar é uma cortina de fumaça tão eficaz quanto os próprios ataques de
Bolsonaro à "velha política". Uma das principais motivações da
investida do Palácio do Planalto é a percepção da perda de espaço do presidente
da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não por coincidência o principal alvo dos
ataques bolsonaristas.
Com mandato a ser encerrado em fevereiro de 2021 e desgastes
acumulados com o governo, Maia passou a ter a liderança contestada por
deputados de olho em sua posição. Arthur Lira e Marcos Pereira se movimentam
com esse intuito, segundo políticos. Em resposta, setores dissidentes do
centrão contrários à aproximação com um presidente que vilipendia as
instituições democráticas se articulam inclusive com deputados de esquerda que
dão sustentação a Maia.
Dentro do próprio Progressistas de Lira, o deputado
Aguinaldo Ribeiro, líder da maioria na Câmara, também cotado para assumir a
presidência da Câmara, condena os ataques de Bolsonaro a Rodrigo Maia
("não é momento para isso") e prega conciliação entre Poderes no
combate ao coronavírus. Sobre a negociação de seu partido com o Planalto, diz
que Lira e Nogueira "é que têm que responder". Nenhum dos dois
retornou os pedidos de entrevista feitos pela piauí.
Para Aguinaldo Ribeiro, Bolsonaro acusa Maia de conspirar
para sua queda com intenção de atiçar sua base radicalizada. "Impeachment
não é uma pauta da Câmara, o assunto vem de fora", ele respondeu. Ele não
descarta que a aproximação do presidente com o centrão tenha como objetivo
arregimentar 172 votos contra o impeachment. "Não sei. Pode ser que [o
presidente] esteja vendo fantasmas", ironizou. "Pode ser uma
tática para tirar de foco os problemas muito graves de saúde e da
economia."
Na esquerda, Marcelo Freixo (PSOL-RJ) diz estar em
permanente contato com deputados de diferentes partidos para frear o avanço do
Planalto no Legislativo. "Meu interesse é impedir a formação de uma base
sólida do governo a partir da troca de cargos. Precisamos montar uma
recomposição de forças baseada na defesa da democracia com uma maioria que
permita o funcionamento do Congresso Nacional. As diferenças entre nós são
menores do que com quem propõe o AI-5", afirma Freixo. O Ato Institucional
nº5 deu origem à fase mais sombria e violenta da ditadura militar. Sua reedição
foi aventada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente,
como resposta a eventuais protestos de esquerda e entrou para o repertório de
manifestantes em passeatas a favor de um golpe, como a de domingo.
Freixo vê uma brecha para o avanço de Bolsonaro no Congresso
falhar. No momento em que a base mais fiel do presidente, de deputados
radicais, se contrapuser à ocupação de cargos federais pelo centrão, justamente
pela contradição no discurso contra a "velha política" do
bolsonarismo, o presidente será obrigado a recuar se não quiser reduzir ainda
mais o núcleo duro de seu apoio político.
Deputados de direita independentes, nem alinhados a Maia nem
ao governo, irritaram-se com o uso da ameaça de golpe militar como bode
expiatório. Para esse grupo, não existe uma articulação autoritária organizada
em curso, porque as Forças Armadas não embarcariam nela. Mas a especulação
serve a bolsonaristas para atacar a cúpula do Congresso e à cúpula do Congresso
para se contrapor ao governo. A deputada Carla Zambelli (PSL-SP), por exemplo,
saiu em defesa do ato de domingo nas redes sociais com argumentação nessa
linha. "Tentam desgastar a manifestação de hoje sob o argumento de que foi
antidemocrática. Oras, o único motivo pelo qual o povo teve motivo de ir às
ruas foi o autoritarismo de Rodrigo Maia e o desrespeito à legítima eleição de
Jair Bolsonaro. Quem é o ditador, afinal?", escreveu.
THAIS BILENKY Repórter na piauí. Na Folha de
S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São
Paulo e Brasília

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