Os dois pilares do começo do governo Bolsonaro eram o
ministro Sergio Moro e o ministro Paulo Guedes, e nas últimas 24 horas ele
atacou os dois. Ameaçou demitir o diretor da Polícia Federal sabendo que isso
provocaria uma crise com Moro e mandou organizar um plano de retomada econômica
sem Paulo Guedes. O que quer Bolsonaro? Encontrar-se consigo mesmo. Ele nunca
foi um ativista anticorrupção, usou a bandeira por interesse eleitoral. Ele
nunca foi um liberal na economia, fingiu ser por interesse eleitoral.
Bolsonaro disputou a eleição brandindo bandeiras
estrangeiras à sua essência, por oportunismo político. Tanto Moro quanto Guedes
se deixaram usar. Nenhum dos dois desconhece a verdadeira natureza de
Bolsonaro, mas eles fizeram cálculos ao entrar no governo. Guedes achava que
convenceria o presidente de que o liberalismo levaria a um crescimento forte e,
portanto, ao sucesso econômico. E político. Moro tornou-se ao longo da
Lava-Jato um conhecedor profundo do submundo da política e sabia que, quando
deputado, Bolsonaro esteve no mesmo partido de alguns dos seus réus. Guedes
sempre quis ser ministro da Economia e implantar o seu projeto porque estava
convencido que saberia fazer melhor do que os seus antecessores
“social-democratas”, como os define a todos. Moro sempre quis ser ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF).
Moro se tornou um novo Mandetta, ou seja, um ministro cuja
demissão não é uma questão de “se”, mas de “quando”. O presidente Bolsonaro
sempre recua quando há uma reação forte às suas decisões, mas depois dá o
troco.
Era previsível que Bolsonaro apontaria suas baterias contra
a Polícia Federal neste momento. Muitas ameaças pesam sobre a cabeça da família
Bolsonaro e todas elas passam pela PF: a investigação do submundo das fakenews
e dos ataques sórdidos aos supostos adversários políticos feitos pelo gabinete
do ódio comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro, a investigação sobre o que se
passava no gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro, onde o ex-capitão do
Bope e miliciano Adriano da Nóbrega teve influência e emprego para a mãe e a
ex-mulher. E, para culminar, o inquérito aberto a pedido da PGR sobre as
manifestações antidemocráticas. O procurador-geral – que também tem sonho
antigo por uma cadeira no Supremo – tentou ao máximo blindar o presidente,
apesar de ele ter sido o grande inspirador e animador do ato que pedia o
fechamento do Congresso e do Supremo. Mesmo com a blindagem da PGR, o inquérito
pode chegar a pessoas ligadas a Bolsonaro, política ou pessoalmente. Por isso,
o movimento óbvio que Bolsonaro faria era o que sempre quis: tentar controlar a
Polícia Federal.
Moro sairá do governo, quando sair, com o peso de silêncios
demais. Nos últimos dias, por exemplo, diante do ataque direto do presidente
Bolsonaro às instituições, endossando com sua presença em ato com bandeiras
anticonstitucionais, ele nada disse. Deveria. O Ministério da Justiça é o mais
antigo do Brasil e é o que faz a ligação entre os poderes. Se ele não viu, foi
mais um caso de cegueira deliberada. E era um bom motivo para defender
princípios e valores. Afinal, foi durante anos membro da magistratura. Deveria
saber a gravidade de se defender um Ato Institucional que rasga a Constituição.
A situação de Guedes é diferente. Aquele plano que foi
apresentado como o depois da pandemia é apenas um borrão e o ministro da Casa
Civil faz mesmo a coordenação dos outros ministérios. É que no governo
Bolsonaro Onyx Lorenzoni nunca foi capaz de exercer esse papel. O general Braga
Netto tem mais habilidade. O problema é que o primeiro esboço do plano tem
aquele ar de um PAC mal feito.
Foi Guedes quem levou o convite de Bolsonaro a Moro para
integrar o governo. Aos dois, o presidente disse que daria carta branca. Era
mentira. Nenhum dos dois teve autonomia. Guedes tem uma lista grande de derrotas
nas suas bandeiras. Nem a reforma Administrativa ele conseguiu tirar da mesa do
presidente. Moro também tem uma coleção de derrotas e chegou na crise de ontem
não tendo sequer uma sombra do projeto que disse que realizaria no governo.
Guedes sabe que quando militares e o presidente da Fiesp se encontram, como
ontem, para discutir um plano econômico, não há espaço para o seu projeto
liberal.

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