Como sempre, uma tragédia dessas enche as igrejas, num
contrassenso: uns chorando seus mortos, outros pedindo proteção para não
morrer. Mas podem também ocorrer coincidências reforçando esse aspecto – que
poderá ser considerado religioso para os crédulos – da atual pandemia,
responsável por uma inimaginável paralisação quase total das atividades humanas
no nosso planeta.
O nome, por exemplo, do presidente francês – Emmanuel
Macron, que, no original, quer dizer “Deus conosco” -, ou um dos sobrenomes do
nosso presidente, Messias, “o redentor prometido por Deus”. Ao que eu saiba, o
francês, conhecido como Macron, não é religioso. Enquanto Bolsonaro, segundo
nos querem fazer crer os chamados pastores evangélicos, muito deles meros
mistificadores e aproveitadores, seria realmente a manifestação da vontade
divina no Brasil. Se o próprio Bolsonaro acredita ou se aproveita disso, não
podemos saber.
A sorte desses pastores e a sorte de Bolsonaro, diante dessa
mistificação, é a de não existir mais no Brasil uma revista ou jornal satíricos
como eram o Pasquim ou a antiga Careta. A crueza
das charges e a ironia e esculhambação dos textos fariam todos eles se esconder
com vergonha de suas mentiras.
Se, como dizem os evangélicos, baseados não sei no quê, Jair
Messias Bolsonaro foi eleito presidente por “vontade divina”, então o povo não
foi iludido, mas foi Deus quem se enganou. Teria sido mais um erro ou engano,
a Bíblia conta outros. E esse erro fica hoje evidente na
questão da proteção dos brasileiros contra o avanço do vírus do apocalipse,
negada pela resistência do presidente Bolsonaro à quarentena e ao
reconhecimento da pandemia.
Deus errou ao dar preferência às orações dos pastores
charlatães mais preocupados em tosquiar suas ovelhas do que em salvá-las. Errou
ao pensar que o farsante batizado no rio Jordão, imitando Jesus, e com mensagem
colocada e deixada entre as pedras no Muro das Lamentações, fazia parte dos 144
mil eleitos celebrados no Apocalipse, o livro bíblico profético do
fim do mundo.
Se não tivesse havido a precaução dos governadores, criando
e mantendo uma quarentena nos seus estados, o Brasil iria viver nesses meses
uma catástrofe pior que a da Lombardia italiana. Só não entendo por que pessoas
com camisetas com letras garrafais “Deus acima de tudo – Aliados patriotas”,
que vejo nos vídeos, misturam evangelismo com extremismo de direita e apoio a
Bolsonaro contra a proteção do povo frente ao coronavírus.
Ontem (13 de abril), o presidente da França, Emmanuel
Macron, prorrogou praticamente por mais um mês, até o dia 11 de maio, a
quarentena em todo o país, reconhecendo uma situação de emergência.
Enquanto me chega de São Paulo um vídeo de evangélicos
falando em hospitais vazios, a França contabiliza, no dia 13 de abril, um
número crescente de vítimas – 117 mil doentes contaminados e 15 mil mortes. O
clima parece de guerra em meio a propagandas e boatos.
Um pretenso operador da Bolsa de Valores de Nova York, um
dos lugares mais afetados pela pandemia, distribui áudios e fake news
denunciando uma conspiração mundial, da qual faria parte a Organização Mundial
da Saúde, e pedindo muita oração para melhorar a vibração no planeta.
Os charlatães estão soltos. Na Bélgica, um
extraordinário showman, Jean-Jacques Crevecoeur, denuncia países,
complô e fala para o pessoal sair da crise tomando cloroquina e vitamina C.
E, no Brasil, o presidente, que falava em gripezinha e ao
qual deve sem dúvida faltar um pino, incita o povo a romper a quarentena, de
maneira irresponsável, sem se preocupar com um aumento no número de mortos. Ele
próprio, segundo circula, faria parte dos afortunados já imunizados, depois de
uma contaminação sem más consequências, como pode ocorrer.
No Brasil, onde a temperatura começará a baixar com o fim do
outono, as contaminações com o coronavírus poderão atingir seu ponto máximo em
maio e junho.
Qual o interesse da maioria dos evangélicos em apoiar a
política suicida do presidente Bolsonaro, de romper a quarentena e incentivar a
propagação de fake news, segundo os quais não há pandemia?
Seria a dificuldade em receber os dízimos com as igrejas
vazias? Se for isso, é escandaloso demais!
***
Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão,
exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos
emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade
brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07.
Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de
Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da
Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Vive na
Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e
RFI.

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