Agora são 171 mais 1. A gestão Bolsonaro entrou em modo
impeachment, no qual um governo enfraquecido dorme e acorda fazendo e
pagando contas para tentar evitar que 342 dos 513 deputados federais acionem a
guilhotina presidencial.
Nessa fase, os que afiançam apoio comportam-se
como mercenários a oferecer serviços ao chefe da cidade cercada.
Cobram horrores, mas, na hora de entregar o prometido, vão fazer o que lhes der
na telha, pois também flertam com os sitiadores.
Como aconteceu com Collor e Dilma, Bolsonaro terá de se
defender em meio a uma recessão
duríssima. Como ocorreu com Dilma e Temer, as flechas virão do Legislativo,
do Judiciário e de outros setores da burocracia, o que vai estrangular a margem
de manobra do presidente.
Diferentemente dos três antecessores empurrados ao jogo do
impeachment, a impopularidade
de Bolsonaro não
é, na saída, tão pronunciada. O capitão também é o mais displicente de todos nas
práticas da articulação partidária e parlamentar.
No Congresso, nunca houve tanta
fragmentação. Faltam identidade e apetite pelo poder ao bloco
oposicionista. O vice-presidente ainda não conspira com forças que podem
derrubar o titular e por isso não se delineia o que seria um governo Mourão.
Uma crise sanitária dissemina incertezas, exige respostas
urgentes de atores que estavam fora do foco da atenção nacional e complica o
cálculo político. Câmara e Senado talvez só consigam se reunir da forma
tradicional no segundo semestre.
Mas o tempo foi cruel com os presidentes obrigados a encarar
o xadrez do impeachment. A cada rodada, seus movimentos de defesa abriam um novo
flanco, o que os fragilizava mais. No final, quem não perdeu o rei de direito
perdeu-o de fato.
Jair Bolsonaro desloca as suas primeiras peças no tabuleiro
dos decapitados na condição de único presidente, ao longo dos 35 anos da
chamada Nova República, filiado a uma corrente
autoritária. Só está jogando porque a democracia até aqui lhe fechou as
portas para uma aventura.
Vinicius Mota
Secretário de Redação da Folha, foi editor de Opinião. É
mestre em sociologia pela USP.

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