A saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça alterou o
equilíbrio político estabelecido pela eleição de 2018. Bolsonarismo e
lavajatismo aproximaram-se na campanha de 2018, com consequências trágicas para
o Brasil. Romperam na última sexta-feira (24). Não foi pacífico.
Em seu discurso de demissão, Sergio Moro começou lembrando
que sob os governos petistas a Polícia Federal tinha mais autonomia que sob
Bolsonaro. Doeu porque é verdade, Jair. Moro fez denúncias muito graves. Horas
depois, o Jornal Nacional mostrou a conversa de WhatsApp em que Bolsonaro pediu
a Moro a demissão do diretor da PF porque deputados bolsonaristas estavam sendo
investigados. Na mesma semana em que Bolsonaro rompeu com Sergio Moro,
aproximou-se de notórios acusados de corrupção como Valdemar Costa Neto,
Roberto Jefferson e Arthur Lira.
Agora vamos descobrir se o autoritarismo de Bolsonaro
consegue se promover sem parasitar a indignação criada pelas revelações da Lava
Jato.
O discurso de guerra às instituições só foi viável em 2018
porque havia uma percepção generalizada de que o sistema era corrupto. Blindado
pela facada e por toda uma vida dedicada à irrelevância, Bolsonaro conseguiu se
tornar a tela em branco onde todas as fantasias moralizadoras foram projetadas.
Foi um senhor feito; não o subestimem. Mas era tudo mentira.
Bolsonaro nunca teve qualquer atuação no combate à corrupção, e a nova aliança
com Jefferson e Costa Neto é uma volta para casa.
Da mesma forma, o entusiasmo bolsonarista sempre foi
alimentado por notícias falsas e crimes cometidos em redes virtuais, mas a
raiva que ali se manipulava tinha um substrato real: os escândalos de corrupção
revelados em Curitiba. Agora vamos descobrir se a máquina de crime virtual
funciona tão bem jogando sem, ou contra, essa indignação preexistente.
Não há dúvida de que a Lava Jato também cometeu abusos, como
ficou claro após as revelações da Vaza Jato. Essa disposição messiânica para
passar por cima das regras, manifesta sobretudo no julgamento de Lula,
certamente ajudou na aproximação com o bolsonarismo. Mas hoje está claro que
Bolsonaro nunca se interessou pelo combate à corrupção, e que, da Lava Jato,
Bolsonaro só gostava dos abusos.
Sem a imagem de cruzada moral, o governo Bolsonaro passará a
ser julgado como os outros governos, por seus resultados. Como andam os
resultados, Jair? Pois é.
Encurralado, Bolsonaro também pode tentar dobrar a aposta
autoritária. É bem possível, mas, repito: teria que fazê-lo sem o entusiasmo
antissistema que a Lava Jato lhe emprestava.
No momento, o governo tenta se reorganizar com militares e
centrão. É cedo para dizer se funciona, mas noto que os militares não morreriam
para evitar um governo Mourão. E o centrão não morre por ninguém.
Enquanto isso, tentam vender a tese do “Moro traidor”. O
bolsonarista Alexandre Garcia postou que “a facada do Adélio foi pela frente”.
A referência é oportuna, porque o bolsonarismo corre o sério risco de voltar
aos níveis de popularidade pré-facada. Se acontecer, Bolsonaro pode cair. Se
resolverem não derrubar, lembrem-se: isso tudo ele fez, durante a pandemia,
porque achou que sobreviveu bem à queda de Mandetta. Imagine o que vai fazer se
sobreviver à queda de Moro?
*Celso Rocha de Barros, Servidor federal, é doutor em
sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

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