terça-feira, 28 de abril de 2020

O POPULISMO DIGITAL

Gustavo Krause, Blog do Noblat – VEJA
O populismo é uma forma de atuação política centrada nos interesses do “povo” em contraposição aos interesses das “elites”, conduzida por um “líder”. O adjetivo digital refere-se à Terceira Revolução Industrial cujas transformações criaram espaços e formas de expressar a retórica política.
É a oportunidade dos velozes e furiosos que faz tremer o arcabouço político-institucional construído ao longo de mais de dois séculos.
Neste sentido, a Era da Informação não é apenas ameaça à democracia representativa, à livre iniciativa, à equidade social, o que para alguns significava o fim da história, como também abriu enorme caminho para a afirmação de um novo ator político, o Populista Digital.
É bem verdade que uso da Internet, da tecnologia e redes sociais, foi fator decisivo para a eleição de Obama, o primeiro presidente afro-americano dos EUA e revolucionou o Marketing político. A partir de então, influenciou as competições eleitorais, mostrando o lado obscuro: as redes sociais desunem mais do que unem; propagam a mentira com mais velocidade do que a verdade; somam os extremos.
Pesquisadores demonstram que a verdade consome seis vezes mais tempo do que uma fakenews para atingir 1500 pessoas. Uma postagem racionalmente concebida, segundo um dos principais estrategista do Brexit, recebia 4 mil curtidas contra 10 a 100 vezes mais do que a postagem vulgar e ofensiva.
Com efeito, o conteúdo das mensagens do populismo digital (Trump, Orban, Matteo Salvini e Bolsonaro), tem vários pontos em comum: (1) desatar o nó da voz do “povo” sufocado pelas “elites” em mensagens contundentes e emanadas da “raiva original” (Trump dizia: “Deixem-me ser o porta-voz de sua ira”); (2) desdenhar da verdade porque o líder é a autoverdade; (3) atacar o “sistema” que é podre e imoral (defender uma pauta reacionária dos costumes); (4) alardear visão conspiratória de modo a desconstruir adversários e amaldiçoar ex-amigos (Trump, ao demitir Steve Bannon seu estrategista, humilhou: “Steve, o babão, chorou e suplicou pelo seu emprego”); (5) dizer e desdizer como permanente manobra diversionista; (6) usar linguagem e imagem que atraiam atenção, despertem identificação e mantenham o mais importante elo político, o engajamento.
Diante dos êxitos, Dominic Cummings, estrategista do Brexit aconselha: “Se você quer fazer progresso na política, não contrate comunicadores. Utilize físicos”. No entanto, Giuliano da Empoli, autor do livro “Os Engenheiros do Caos”, previne: “O populismo é filho do casamento entre a cólera e os algoritmos”.
Gustavo Krause é ex-ministro da Fazenda
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