O populismo é uma forma de atuação política centrada nos
interesses do “povo” em contraposição aos interesses das “elites”, conduzida
por um “líder”. O adjetivo digital refere-se à Terceira Revolução Industrial
cujas transformações criaram espaços e formas de expressar a retórica política.
É a oportunidade dos velozes e furiosos que faz tremer o
arcabouço político-institucional construído ao longo de mais de dois séculos.
Neste sentido, a Era da Informação não é apenas ameaça à
democracia representativa, à livre iniciativa, à equidade social, o que para
alguns significava o fim da história, como também abriu enorme caminho para a
afirmação de um novo ator político, o Populista Digital.
É bem verdade que uso da Internet, da tecnologia e redes
sociais, foi fator decisivo para a eleição de Obama, o primeiro presidente
afro-americano dos EUA e revolucionou o Marketing político. A partir de então,
influenciou as competições eleitorais, mostrando o lado obscuro: as redes
sociais desunem mais do que unem; propagam a mentira com mais velocidade do que
a verdade; somam os extremos.
Pesquisadores demonstram que a verdade consome seis vezes
mais tempo do que uma fakenews para atingir 1500 pessoas. Uma postagem
racionalmente concebida, segundo um dos principais estrategista do Brexit,
recebia 4 mil curtidas contra 10 a 100 vezes mais do que a postagem vulgar e
ofensiva.
Com efeito, o conteúdo das mensagens do populismo digital
(Trump, Orban, Matteo Salvini e Bolsonaro), tem vários pontos em comum: (1)
desatar o nó da voz do “povo” sufocado pelas “elites” em mensagens contundentes
e emanadas da “raiva original” (Trump dizia: “Deixem-me ser o porta-voz de sua
ira”); (2) desdenhar da verdade porque o líder é a autoverdade; (3) atacar o
“sistema” que é podre e imoral (defender uma pauta reacionária dos costumes);
(4) alardear visão conspiratória de modo a desconstruir adversários e
amaldiçoar ex-amigos (Trump, ao demitir Steve Bannon seu estrategista,
humilhou: “Steve, o babão, chorou e suplicou pelo seu emprego”); (5) dizer e desdizer
como permanente manobra diversionista; (6) usar linguagem e imagem que atraiam
atenção, despertem identificação e mantenham o mais importante elo político, o
engajamento.
Diante dos êxitos, Dominic Cummings, estrategista do Brexit
aconselha: “Se você quer fazer progresso na política, não contrate
comunicadores. Utilize físicos”. No entanto, Giuliano da Empoli, autor do livro
“Os Engenheiros do Caos”, previne: “O populismo é filho do casamento entre a
cólera e os algoritmos”.
Gustavo Krause é ex-ministro da Fazenda

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