Ao forçar a demissão de Sergio Moro do Ministério da
Justiça, Jair Bolsonaro perdeu metade de seu cacife político, deu balas de
canhão para o Congresso disparar contra ele em um cada vez mais provável
processo de impeachment e, de quebra, impulsionou a mais forte candidatura
presidencial de oposição contra si: a do próprio Moro. Por que o presidente
dispararia tantas vezes contra o próprio pé? Por que agora?
Antes das conjecturas, os fatos. Levantamento da consultoria
Arquimedes aponta que, no debate político sintetizado pelo Twitter, Bolsonaro
encolheu a um isolamento raramente visto. Dos 44% de menções favoráveis que
tinha na véspera, o presidente ficou reduzido a 18% de manifestações a seu
favor na sexta-feira. Quando a Arquimedes extrai apenas os tuítes que mencionam
Moro e Bolsonaro simultaneamente, a surra é ainda maior: 90% a favor do
ex-ministro, 10% pró-Bolsonaro.
Bolsonaro perdeu os lava-jatistas. Foram eles que
viabilizaram sua eleição, em 2018, ao descarregarem no candidato do PSL todo o
desejo de derrotar o PT. Aderiram de vez após Bolsonaro ter sido esfaqueado em
Juiz de Fora (MG), sumir do debate político e, por consequência, parar de criar
embaraços para quem queria votar nele mas tinha vergonha. Sem eles, Bolsonaro
volta à sua popularidade pré-facada.
O presidente tende a afastar cada vez mais os lava-jatistas
à medida que seu gabinete do ódio concentra o fogo anti-amigo nas redes sociais
contra o herói da Lava-Jato. Moro saiu do governo levando consigo uma coleção
de mensagens de WhatsApp comprometedoras contra o presidente, mas muito mais do
que isso. Ele tira de Bolsonaro a chance de o ex-chefe recuperar aqueles
simpatizantes antipetistas que queriam gostar do governo bolsonarista mas não
tinham desculpa para declarar sua simpatia. Ao pedir emprego e se colocar “à
disposição do país”, Moro vestiu o figurino de candidato e preencheu esse
vácuo. Não lhe faltará legenda nem companheiro de chapa. O Podemos e Mandetta,
o ex-ministro da Saúde, já se assanharam.
De volta às conjecturas.
Há de haver um motivo grave e urgente que explique Bolsonaro
arrancar o colete à prova de balas, desembainhar a adaga e apontá-la contra o
próprio abdômen político. O harakiri presidencial não é acaso. E, se a
auto-facada tem causa, há de ter consequências planejadas. Ninguém junta tantos
generais em um palácio sem ouvir a palavra “estratégia” incontáveis vezes ao
dia. Militares planejam batalhas, escolhem alvos, contam tropas mesmo quando
não há inimigos.
A hipótese mais popular nas redes para explicar o motivo de
Bolsonaro demitir o diretor-geral da Polícia Federal e provocar a maior de uma
sucessão de crises políticas é medo. Medo do presidente de que investigações da
PF estivessem por incriminar o 01. Mas a “rachadinha” do gabinete de Flavio
Bolsonaro não parece ser o motivo principal. O inquérito que mais incomoda
Bolsonaro é o que trata do financiamento, por empresários bolsonaristas, de
campanhas de difamação na internet e que acabariam por desaguar no 02 e, no
limite, no próprio 00.
Nesse cenário, pagar o altíssimo preço político de alienar
Moro, a Lava Jato e seus fãs seria imperativo para manter a Polícia Federal no
bridão e garantir que a intersecção entre a família de zeros e a liberdade de
ir e vir não seja um conjunto vazio.
O cenário se agravou porque Bolsonaro não apenas criou um
novo adversário eleitoral como transformou-o em inimigo. Um inimigo convicto e
que, quando lhe convém, sabe coletar provas. A interferência de Bolsonaro em
inquéritos da Polícia Federal, se provada, é um crime que o Congresso será
obrigado a investigar. Para escapar, Bolsonaro terá que fazer um curso
intensivo de toma-lá-dá-cá com seus novos velhos amigos, aqueles condenados e
presos durante o mensalão. A única escapatória do presidente é aquele tipo de
política que Bolsonaro chamou de "patifaria".
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO Editor-executivo da piauí (site),
foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado
de S. Paulo e presidente da Abraji

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